SM_90_FINAL_COMPLETA

DOS S I Ê : | VANGUARDA 30 • SER MÉDICO sado para diversos vírus e também foi observado no SARS-CoV-2. Contudo, não há evidência cientí- fica com qualidade suficiente para recomendar o uso da cloroquina ou hidroxicloroquina de rotina na Covid-19. Um estudo francês sem cegamento e um estudo chinês, ainda não publicados em revis- ta submetida a revisão por pares, apontaram alguma eficácia da hi- droxicloroquina. Porém, proble- mas metodológicos como tamanho de amostra pequeno e interrupção do tratamento por vários pacientes representam vieses importantes desses dois estudos². Assim, ambos os estudos não são suficientes para consolidar esses fármacos como padrão no tratamento, ficando res- tritos a ensaios clínicos. Dessa forma, devido aos po- tenciais eventos adversos dessas drogas (principalmente em do- ses altas), sua prescrição off-la- bel deve considerar os riscos de prolongamento do intervalo QT, arritmias cardíacas e a falta de eficácia comprovada até que es- tudos maiores e com melhor me- todologia estejam concluídos³,⁴. 2. Lopinavir/Ritonavir Os estudos iniciais falharam em demonstrar benefícios, e atual- mente o antirretroviral perdeu lu- gar em termos de investigação para outros antivirais que têm resulta- dos interinos mais promissores³,⁴. 3. Corticoides A ação do SARS-CoV-2 pode causar uma intensa resposta infla- matória pulmonar, que, em mui- tos casos, evolui para síndrome do desconforto respiratório agudo, motivo pelo qual os corticoides po- deriam ter algum papel benéfico. No entanto, o uso de corticoide em pacientes com Covid-19 não se relacionou com benefícios em relação à melhora de prognóstico da pneumonia viral e inflamação. Seu uso é indicado apenas devi- do a outra doença de base (asma, por exemplo), em que sua pres- crição deve ser mantida³,⁴. 4. Remdesivir Antiviral análogo de nucleosídeo desenvolvido para tratar infecções por vírus de RNA, como o SARS- -CoV-2, mostrando-se promissor durante o último surto de Ebola. Apresentou redução da lesão pul- monar por SARS-CoV-2 em estu- dos com modelos animais, assim como segurança e tolerabilidade em estudo de fase I com humanos. Há alguns relatos de caso de efi- cácia em pacientes com Covid-19 e diversos ensaios clínicos em anda- mento. Foi aprovado pela Food and Drug Administration (órgão regu- lador dos Estados Unidos) em 1º de maio, em caráter emergencial, após demonstrar que o medicamento re- duziuo tempode internaçãoem31%. 5. Tocilizumab Anticorpo monoclonal direcio- nado contra o receptor de interleu- cina-6 (IL-6), citocina pró-inflama- tória que se mostrou estar elevada nos casos graves de Covid-19 e que, portanto, supõe-se mediar a in- tensa inflamação observada nes- ses casos. O tocilizumab é utilizado atualmente para o tratamento da artrite reumatoide, devido a sua ação imunomoduladora. No momento, há relato de es- tudo com 21 pacientes que apre- sentaram melhora importante, SARS-CoV-2 no momento exato em que está prestes a invadir uma célula. Imagem capturada por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) [1] FIOCRUZ SER MÉDICO • 31 mas sem grupo controle. Diver- sos estudos controlados avaliam a eficácia do tocilizumab neste momento, além de fármacos com mecanismos de ação similar². 6. Favipiravir Análogo de nucleotídeo que ini- be a RNA polimerase viral, segun- do dados pré-clínicos envolvendo Ebola, Influenza e outros vírus de RNA. Demonstrou boa tolerabilida- de e está disponível no Japão para o tratamento da Influenza, mas os dados de eficácia contra a Covid-19 são limitados. Ensaios clínicos es- tão em andamento². 7. Plasma de convalescentes Covid-19 ou soro de anticorpos neutralizantes Muito se tem comentado sobre a possibilidade do uso do plasma obtido de pacientes que se recupe- raram da infecção por SARS-CoV-2. Supõe-se que o plasma desses pa- cientes conteria anticorpos, desen- volvidos por sua resposta imune, capazes de neutralizar o vírus. Esse efeito poderia ser induzido no pa- ciente que recebesse o plasma, re- sultando em uma inibição da repli- cação viral e melhora da infecção. No passado, a estratégia foi em- pregada em séries de casos e estu- dos maiores em pacientes críticos acometidos por Influenza. Ainda, uma revisão dos estudos com pa- cientes com Influenza e com SARS (doença causada pelo SARS-CoV no início dos anos 2000) demonstrou alguma eficácia dessa estratégia, embora os estudos analisados ti- vessem risco de viés. Na Covid-19, alguns casos de pacientes tratados com plasma de convalescentes foram descritos, mas estudos maiores e controlados estão sendo iniciados². 8. Outras medicações ou estraté- gias em investigação (limitadas a ensaios clínicos)²,³,⁴ - Azitromicina - Baloxavir marboxil (antiviral) - Ivermectina - Nitazoxanida - Oseltamivir (antiviral) - Ribavirina (antiviral) - Umifenovir (antiviral) Conclusões É prematuro esmiuçar estraté- gias terapêuticas que ainda estão em fase muito inicial de investiga- ção, e deveras perigoso extrapolar para a vida real experimentos de ciência básica ou de estudos clí- nicos com sérias limitações me- todológicas, apesar da ansiedade global na busca de uma cura para a Covid-19. O que devemos estimular nesse momento é a avaliação críti- ca dos ensaios clínicos publicados e a união dos serviços numa rede colaborativa de pesquisas em prol de produzir evidências científicas de melhor qualidade.  *Alexandre Naime Barbosa é professor doutor e infecto- logista da Universidade Estadual Paulista Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo é médico psiquia- tra e coordenador da Assessoria de Comunicação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo Sérgio Cimerman é médico do Instituto de Infec- tologia Emílio Ribas e doutor em infectologia pela Universidade Federal de São Paulo Referências 1. Kalil AC. Treating COVID-19: off-label drug use, compas- sionate use, and randomized clinical trials during pande- mics. JAMA. 2020 Mar 24. doi: 10.1001/jama.2020.4742 2. Sanders JM, Monogue ML, Jodlowski TZ, Cutrell JB. Pharmacologic treatments for coronavirus disease 2019 (COVID-19): a review. JAMA. 2020 Abr 13. doi: 10.1001/jama.2020.6019 3. Infectious Diseases Society of America. Infec- tious Diseases Society of America Guidelines on the treatment and management of patients with COVID-19 [Internet]. Arlington: IDSA; 2020 [citado em 2020 Abr 13]. Disponível em: https://bit.ly/3eB2Irk 4. Johns Hopkins Medicine. JHMI clinical guidance for available pharmacologic therapies for COVID-19 [Internet]. Baltimore: JHMI; 2020 [citado em 2020 Abr 13]. Disponível em: https://bit.ly/34UqSbJ Célula apoptótica (verde) fortemente infectada com partículas do novo coronavírus (laranja), isoladas de amostra de paciente [1] NIAID

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