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Edição 85 - Outubro// de 2019

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Entrevista

“Medicina não é profissão, é vocação”

Por Aglaé Silvestre


Walter Bloise e Manlio Napoli

A história de vida e amizade entre Walter Bloise e Manlio Napoli – que remonta aos tempos do Ginásio do Estado, em São Paulo, e culmina com o sucesso na carreira profissional e acadêmica desses dois médicos ilustres – confunde-se com o desenvolvimento da própria Medicina no país.

Longevos e com saúde, aos 97 anos de idade, ambos podem ser considerados precursores nas pesquisas no campo da Endocrinologia e Ortopedia e Traumatologia, respectivamente. Ainda hoje, após sete décadas de trabalho e conquistas de títulos acadêmicos, e atuando como médicos especialistas, Bloise mantém-se em atividade.
Os calouros Bloise e Napoli iniciaram seus estudos na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) na década de 40, período em que a estruturação dos departamentos nos quais viriam a atuar estava em seus primórdios e eram formados quase em sua totalidade por professores estrangeiros.

Nessa mesma época, o Hospital das Clínicas da FMUSP inaugurava suas atividades. Foi lá que os dois amigos puderam ingressar no programa Médicos Internos – que posteriormente viria a se chamar Residência Médica –, desenvolvendo importantes pesquisas, ensinando e atuando na assistência ao longo de décadas.

Nesta entrevista à Ser Médico, além de contar um pouco mais sobre essa trajetória, eles falam dos desafios que a formação e o próprio campo da medicina enfrentam, considerando o número excessivo e a má qualidade das escolas médicas. Discutem também o impacto das novas tecnologias na profissão e na relação médico-paciente.

Ser – Como os srs. avaliam o ensino médico em sua época e nos dias de hoje? O que mudou de lá para cá?


Bloise – Depende do aspecto da formação, se básica ou clínica. No primeiro caso, acho que não há muita diferença, porque você transmite conhecimentos e não atua junto aos pacientes. Não conheço exatamente a estrutura atual, mas acho que as escolas estão colocando os estudantes precocemente em contato com os pacientes. Em nossa época, isso começava no quarto ano. Eu comecei no segundo ano na Santa Casa, por minha vontade, mas não era comum. Para mim, a medicina não é profissão, é vocação. Se o indivíduo faz dela uma profissão, ele visa ao lucro, então o erro começa pela base. O médico tem de ver e ouvir o paciente. Dificilmente têm-se uma visão humanitária, que é parte essencial da Medicina, 50% é conhecimento científico e 50% é o apoio humanitário que o paciente recebe do médico.

Napoli – As diferenças começam no ensino. A FMUSP tinha alguns professores italianos contratados pelo Governo do Estado. A Anatomia era a cadeira básica da faculdade. Era um ensino exagerado de Anatomia. Entrei na faculdade em 1941 e me formei em 1946. Nessa época, eram três anos só de Anatomia, hoje são de três a quatro meses. Os recursos médicos eram pouquíssimos. O médico se formava, começava a trabalhar, e se era uma pessoa com capacidade de observação, ele ia aprendendo, comparando, e o que ele aprendia, aplicava. Esses médicos mais velhos eram muito respeitados porque tinham conhecimento acumulado. Hoje a Medicina é um acúmulo de conhecimentos práticos ajudados por laboratórios excepcionais que fazem praticamente tudo. Antigamente era só o médico.

"Acho que o trabalho é o que mantém a pessoa viva. O dia em que você acordar e pensar 'já fiz tudo, não tenho nada o que fazer', ai já decretou a sua falência."

- Walter Boise
 

Ser – As novas tecnologias contribuíram para essas mudanças na prática médica?

Bloise – Sem dúvida nenhuma, a tecnologia deu um salto tremendo, principalmente com as aferições de dosagens hormonais e de várias substâncias no organismo. Isso foi na década de 60. E, depois, com o advento das imagens, tomografia, ressonância magnética, obviamente, a Medicina expandiu muito. Só que esses recursos foram mal encampados pelos médicos. Em função da falta de formação adequada, fica mais fácil abstrair a anamnese, a semiologia, o exame no paciente, fixando-se somente em pedir exames. Isso não é Medicina. Os exames devem ser feitos depois que você examina o paciente.

Napoli – As Santas Casas tiveram um papel importante, principalmente na descrição das doenças. Tínhamos reuniões especiais, só com médicos, para discutir casos. Isso ainda existe, é o básico, mas hoje temos recursos que não tínhamos. Até o raio-X veio depois. A Medicina se desenvolveu com a pesquisa, procurava olhar o doente e ver o que era diferente do normal. Isso levou anos para se desenvolver. A prática mudou porque os meios de tratamento evoluíram. Hoje a área de Ortopedia e Traumatologia é muito intervencionista, opera muito. Antes não havia isso, predominavam os tratamentos conservadores.

Ser – O que os senhores acham da expansão do número de escolas?

Napoli – É muito negativo. Existem médicos que não têm conhecimento nenhum, não têm prática.

Bloise - Endosso o que Napoli falou. As escolas são fábricas de diplomas, com poucas exceções. As clássicas que nós temos, já sabidamente são boas. Deveria haver um exame de seleção para os médicos. Se não passar, como na OAB, não pode exercer a Medicina.

"Hoje a Medicina é um acúmulo de conhecimentos com auxílio dos laboratórios. Antigamente era só o médico"

- Manlio Mário Marco Napoli
 

Ser – Qual foi o maior desafio em suas carreiras como pesquisadores?

Napoli – Aceitei um desafio, que se chama pé torto congênito. O que se fazia na época era esperar o fim do crescimento para começar a tratar. Eu comecei a tratar a partir dos seis meses de idade, porque o tecido é mais flexível. Se a criança já tem a doença e só começa a tratar com seis anos, não tem lógica. Mas não se pensava nisso, e eu mudei isso radicalmente.

Ser - Qual o segredo para continuar atuando na Medicina com essa longevidade?

Bloise - O segredo é trabalho. Acho que o trabalho é o que mantém a pessoa viva. O dia em que você acordar e pensar “já fiz tudo, não tenho nada o que fazer”, aí já decretou a sua falência. A obrigação de fazer alguma coisa é um segredo. Outro é o fato de ter feito muito esporte na vida, e embora tenha acabado com o meu joelho, ainda consigo andar. O terceiro é você separar na sua vida aquilo que merece preocupação, e só se preocupar com as coisas importantes. E só existem duas coisas importantes na vida: a morte de um ente querido e doença incurável. O resto se resolve com dinheiro, com abnegação, com briga, com raiva, de algum jeito você resolve.
 


WALTER BLOISE



Com mais de cem trabalhos científicos publicados no Brasil e no exterior, Bloise iniciou sua formação com o Professor José Ramos Jr., na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, e, posteriormente, no internato no HC da FMUSP.

Ao longo de sua trajetória profissional, participou ativamente do desenvolvimento de pesquisa e ensino em sua área de atuação, tendo contribuído para a criaçãotrada Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), em 1951. “Como estudantes, fundamos a primeira Sociedade de Endocrinologia do Brasil, em 1946, que deu origem à SBEM”, revela.

Após o doutorado, Bloise, que já atuava no pronto-socorro do HC, foi contratado para trabalhar no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM). Ali, se tornou chefe da Clínica Endocrinológica, onde ficou por quase três décadas.

Hoje, com mais de 70 anos de carreira, permanece em atividade como professor livre-docente de pós-graduação da FMUSP e faz parte do corpo clínico da disciplina de Endocrinologia do HC.

 

MANLIO MÁRIO MARCO NAPOLI

Iniciou suas atividades acadêmicas e médicas na Clínica Ortopédica e Traumatológica do Hospital das Clínicas da FMUSP, em 1946. Fez Residência Médica nesse mesmo serviço e, a partir daí, filiou-se à escola do Professor Godoy Moreira, na qual realizou toda sua carreira universitária. Em 1964, defendeu tese de livre-docência Napolisobre sua experiência no Tratamento Cirúrgico do Pé Equinovaro Congênito.

De auxiliar de ensino, chegou a Professor Titular do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP, em 1986. Foi eleito presidente Mundial do Colégio Internacional de Medicina e Cirurgia do Pé e recebeu, em 2004, o título de Professor Emérito da FMUSP.

Publicou 13 livros didáticos e criou centros particulares de ensino e pesquisa, como o Clube do Pé, hoje existente em vários estados brasileiros. Atualmente, está empenhado no lançamento de sua autobiografia, programada para acontecer ainda neste ano.

 


Arrigo Raia, médico,
106 anos

“Bendigo o momento em que decidi seguir a carreira médico-cirúrgica. Muito trabalhei, muitos exemplos transmiti, muito ensinei e muito recebi em troca. Sinto-me realizado e com experiência suficiente para dizer aos mais jovens que vale a pena todo o sacrifício que a carreira médica exige. Além de tudo, nos oferece um ocaso tranquilo e feliz pela nítida noção do dever cumprido”. (Arrigo Raia)

A medicina chegou à sua vida muito cedo. Aos oito anos, o pequeno Arrigo Raia — nascido em 1912, em Araraquara — acompanhava o avô materno, italiano e médico, que imigrara para o Brasil, nas visitas aos doentes, no trólebus ou no carro. Já, então, sabia que queria ser médico-cirurgião.

E assim foi. Cerca de 10 anos depois, em 1931, ele entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), onde se formou em 1936. “Sou a única pessoa viva que acompanhou a faculdade por todos os lugares por onde ela passou. Primeiramente na Rua Brigadeiro Tobias, em seguida na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e, depois, minha turma inaugurou os edifícios da FMUSP na avenida Dr. Arnaldo, onde está até hoje”.

No quarto ano, confessou, decepcionou-se porque na época a cirurgia era muito restrita e, nos casos das cirurgias maiores, o índice de mortalidade era muito grande. “O panorama mudou muito quando, em 1945, o Professor Doutor Benedito Montenegro assumiu a direção da primeira cadeira de Clínica Cirúrgica, e o Professor Doutor Alípio Corrêa Netto assumiu a segunda cadeira, em 1946”.

No último ano da faculdade, Arrigo Raia ganhou uma das 12 bolsas oferecidas pelo governo italiano. Chegou à Itália, com os demais colegas, recém-formado, em 1937. Lá teve a oportunidade de conhecer diferentes clínicas e decidiu estender a viagem até a Alemanha.

Ao voltar para o Brasil, em 1938, passou a trabalhar na FMUSP, onde desenvolveu uma admirável e consistente carreira. Em 1939, tornou-se o terceiro assistente da cadeira de Clínica Cirúrgica, dirigida pelo Professor Doutor Alípio. Em 1941, foi nomeado para exercer o cargo de professor de Enfermagem Cirúrgica da Escola de Enfermagem Obstétrica. Tornou-se Livre Docente de Clínica Cirúrgica em 1943. O título da Professor Adjunto veio em 1961 e, em 1970, assumiu o cargo de Chefe da Disciplina do Aparelho Digestivo do Departamento de Clínica Cirúrgica. Após concurso, conquistou o título de Professor Titular do Departamento de Cirurgia, em 1973.

Logo após tornar-se Professor Titular de Cirurgia do Aparelho Digestivo, adotou uma conduta pioneira, ao dividir a especialidade em grupos dedicados, respectivamente, a cada um dos setores da disciplina. A chefia de cada um deles foi entregue a jovens cirurgiões que, gradativamente, transformaram-se em líderes na especialidade: Professor Henrique Walter Pinotti (esôfago); Professor José Gama Rodrigues (estômago); Professores Daher Cutait e Angelita Habr Gama (colo, reto e ânus); Professor Silvano Raia (fígado e hipertensão portal); e Professor Marcel Cerqueira Cesar (vias biliares e pâncreas).

Professor democrata, Arrigo Raia deu liberdade aos assistentes para que desenvolvessem suas atividades na disciplina, tanto que sete deles tornaram-se professores titulares, cinco na FMUSP e dois em outras universidades. “Com a colaboração de todos, contribuímos para a evolução da cirurgia digestiva em nosso meio, de tal sorte que, ao fim do meu mandato de professor, eram praticadas todas as técnicas cirúrgicas para tratamento das doenças do aparelho digestivo, da apendicectomia ao transplante de órgãos”, afirmou.

Durante sua trajetória publicou três livros: Manual de Pré e Pós-operatório, com a colaboração dos médicos Joel Faintuch e Marcel Cerqueira Machado; Manifestações Digestivas da Moléstia de Chagas e Tratado de Clínica Cirúrgica Alípio Corrêa Netto, com a colaboração de Euriclydes de Jesus Zerbini. Recebeu 33 prêmios concedidos por sociedades científicas e congressos médicos, um deles pela Academia Americana pelo Progresso da Ciência de Nova York.

Além da família, a cirurgia foi sua paixão durante toda a vida. Operou até os 86 anos. Casou-se duas vezes, tem uma filha, dois netos e quatro bisnetos. Sua grande alegria e diversão, até ficar acamado com mais de 100 anos, era brincar com os bisnetos. Até então, fazia caminhadas e musculação e, sempre que podia, viajava para rever Araraquara.

*Texto baseado em depoimento escrito pelo Dr. Arrigo Raia, publicado no jornal da Fundação Faculdade de Medicina da USP, quando ele e a universidade completavam 100 anos. Devido ao seu estado de saúde, a Ser Médico não pode entrevistá-lo).


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