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Edição 84 - Julho/Agosto/Setembro de 2018

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Em foco

Slow Medicine X Fast Medicine

Os “pacientes” transformaram-se em “impacientes”, consultam o Dr. Google, fazem seu diagnóstico e usam o médico como “instrumento” autorizado a solicitar exames e a prescrever medicamentos

Dario Birolini*

A divulgação das considerações abaixo, ainda que como um estímulo à meditação,
seguramente implica em contrariar interesses de profissionais e de empresas. Uma avalanche de avanços tecnológicos tem modificado nossa vida de forma radical. Ainda que seja inegável considerar que tais avanços resultaram em melhorias inimagináveis, abrindo perspectivas que, até poucas décadas atrás, eram meras fantasias, por outro lado estamos pagando um preço elevado por elas.

Albert Einstein comentou, há algumas décadas: “tenho medo do dia em que a tecnologia superará o relacionamento humano. O mundo terá uma geração de idiotas”. Mais recentemente, em 2015, Umberto Eco afirmou, em uma entrevista, que “num mundo com sete bilhões de pessoas, você não concorda que há muitos imbecis? Na internet, o imbecil pode opinar sobre tudo o que não entende”.

Ocorre que os “pacientes” do passado se transformaram em “impacientes”. Quando apresentam qualquer desconforto consultam o Dr. Google, fazem seu próprio diagnóstico e usam o médico como um “instrumento” autorizado a solicitar exames e a prescrever medicamentos. Valorizam sua qualificação profissional com base no volume de exames pedidos, quanto mais sofisticados melhor, e no número dos medicamentos prescritos, quando mais novos melhor. Transformam-se assim nos denominados worried well, que nada mais são do que pessoas saudáveis, mas preocupadas com a possibilidade de ficarem doentes, e que passam a consultar médicos (especialistas!), a
solicitar que eles peçam exames e prescrevam remédios ainda que sejam totalmente desnecessários. Ou, então, com as mesmas finalidades, procuram um pronto-socorro.

Não é uma volta ao passado, mas o reconhecimento dos impactos positivos
dos avanços tecnológicos, adotando-os de forma sensata e cuidadosa

O parecer do médico passou a ser menosprezado. Até há poucas décadas, os exames eram considerados “complementares”. Hoje, complementar é a avaliação clínica. Tentar induzir os pacientes/impacientes a adotar hábitos de vida saudáveis para corrigir suas “pseudo-doenças” é a melhor forma de ser desprestigiado profissionalmente. Para complicar mais ainda essa catástrofe, os médicos, para sobreviver, passam a aceitar as imposições dos impacientes.

Exercendo uma atividade profissional também deturpada pela disseminação escandalosa de desinformações científicas e mentiras, mesmo por revistas médicas conceituadas, os mais jovens dedicam-se, cada vez mais, a alguma especialidade mais restrita, fato que resulta em inevitável fragmentação da assistência que, por sua vez, é agravada pela falta de comunicação entre os diferentes profissionais envolvidos no
atendimento a um determinado paciente. Para tentar superar essas falhas, adotam-se protocolos e guidelines, esquecendo-se que “cada doente é um doente”, com um perfil genômico, físico, psicológico, fisiológico, absolutamente próprio. Recentemente, foi publicado na Folha de S. Paulo um depoimento do oncologista Fernando Cotait
Maluf afirmando que “(...) estudos recentes em pacientes com câncer em vários sítios primários (...) mostram que existem alterações moleculares e mecanismos de crescimento diferentes, invasão e metástases distintas, dependendo da área em que é
feita a biópsia do tumor (...). São como digitais, específicas de cada indivíduo. Nessa nova era, a da medicina de precisão (...) trataremos os indivíduos como únicos”.

É comum que os pacientes sejam submetidos a procedimentos questionáveis e que recebam dezenas de medicamentos, não raramente sem qualquer indicação, prescritos por diferentes médicos, que desconhecem totalmente seus inevitáveis efeitos adversos e as consequências das possíveis e prováveis interações medicamentosas, e que sejam submetidos, sem qualquer lógica, a exames de rotina repetidos a curtos intervalos. Vemos, à exaustão, prescrições de doentes internados das quais constam diariamente, quando não repetidas de manhã e à tarde, dosagens de sódio, potássio, cloro, fósforo, ureia, creatinina, TGO, TGP, Gama GT, amilase, lipase, PCR, VHS etc. etc.

Pratica-se o que pode ser denominado Fast Medicine, cujos princípios básicos podem assim ser resumidos: o novo é sempre melhor; todos os exames e tratamentos são eficientes e seguros; a tecnologia resolve qualquer problema; fazer mais ajuda na recuperação e melhora aqualidade de vida; a identificação precoce das doenças é sempre melhor; os fatores de risco, assim como os distúrbios emocionais, podem
ser controlados com medicamentos. Em outras palavras, a Fast Medicine adota o uso de fármacos para qualquer desconforto, fragmenta o atendimento entre diferentes especialistas, não ajuda os pacientes a tomar decisões responsáveis a respeito de seu próprio tratamento, apoia o conceito de que fazer mais é sempre melhor e é orientada pela doença e não pela saúde.

Bloqueio da catástrofe

Não é difícil imaginar algumas formas de bloquear essa catástrofe que nos atinge. Nas escolas de Medicina, os alunos deveriam ser alertados para esses problemas. Dever-se-ia investir no aprimoramento da formação dos profissionais de saúde. As redes sociais e a mídia poderiam dirigir ao público “contrainformações” esclarecidas, e deveriam ser tomadas iniciativas para bloquear o que Gilberto de Nucci denominou Evidence Biased Medicine, ou seja, a medicina baseada em resultados tendenciosos. E, obviamente, as entidades representativas dos profissionais de saúde deveriam colaborar para corrigir essas distorções.

Evidentemente, se adotadas, medidas dessa natureza contrariariam imensos interesses econômicos de empresas e de profissionais e, por isso, enfrentariam insuperáveis barreiras. Pois bem, a Slow Medicine foi criada exatamente para tentar resgatar a medicina tradicional, baseada na relação clara, honesta e respeitosa entre os médicos e os pacientes. Seus princípios básicos baseiam-se em dedicar tempo para ouvir, compreender, avaliar e oferecer suporte emocional ao paciente; em investir na individualização e não na generalização, respeitando as opções do paciente; em compartilhar as decisões com o paciente, levando em conta suas características pessoais, familiares, sociais.

A Slow Medicine pretende valorizar a relação médico-paciente e incentivar o médico a dedicar à consulta um tempo adequado, a usar de forma correta os recursos diagnósticos, a avaliar a eficácia e os possíveis riscos do tratamento, a assumir seu papel perante a família e a sociedade; e a reconhecer suas limitações e seus eventuais erros. Não é uma volta ao passado, mas sim a abertura de novas perspectivas, reconhecendo os possíveis impactos positivos dos avanços tecnológicos, mas adotando-os de forma sensata e cuidadosa. Deve ficar claro que a Slow Medicine não é uma especialidade ou, muito menos, uma forma de medicina alternativa. É, fundamentalmente, um incentivo à adoção de princípios baseados na ética e na relação médico-paciente, contrapondose à adoção de medidas diagnósticas e terapêuticas
baseadas em interesses espúrios de qualquer natureza e, como tal, ela se aplica a
qualquer especialidade.

A adoção dos princípios da Slow Medicine viria trazer não somente benefícios imensuráveis na assistência aos pacientes, reconduzindo o médico a seu papel tradicional, mas traria imensas vantagens econômicas por reduzir o desperdício dos limitados recursos disponíveis. Conforme dito no início, estas considerações pretendem ser, pelo menos, um incentivo à meditação.

*Dario Birolini é cirurgião geral e professor emérito
da Faculdade de Medicina da USP



 


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