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Mundo digital & tecnologia científica


HISTÓRIA DA MEDICINA (pág. 34)
Freud, Sherlock Holmes e Coca-cola


CULTURA (pág. 38)
A escola que revolucionou o design e a arquitetura


TURISMO (pág. 42)
Dubrovnik, a pérola do Adriático


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Música barroca e psicanálise


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Edição 79 - Abril// de 2017

HISTÓRIA DA MEDICINA (pág. 34)

Freud, Sherlock Holmes e Coca-cola

O que esses ícones do século 20 têm em comum?

José Marques Filho*

A Coca Cola, o médico Sigmund Schlomo Freud (1856-1939) e o personagem Sherlock Holmes são ícones do século 20, conhecidos em quase todo o mundo. O famoso detetive, personagem criado pelo médico sir Arthur Conan Doyle, tem seu espaço reservado entre leitores de romances policiais. A história de Freud e da Coca-Cola é recheada de mistérios, lendas e mitos que alimentam textos jornalísticos, fantasias e, até mesmo, a literatura médica e a de marketing. Já o famoso detetive virou ícone midiático por meio de filmes e de inovações publicitárias, como o pocket book.

Mas qual a possível relação entre esses ícones da ciência, da área de propaganda e marketing e da literatura? A resposta é simples: outro ícone do século 20, o fármaco/veneno cocaína.

Não pode ser apenas coincidência que o farmacêutico John Styth Pemberton, de Atlanta, nos Estados Unidos – tentando criar uma medicação para cefaleia em seu tosco laboratório de fundo de quintal –, tenha produzido um xarope caramelado à base de folhas de coca, noz de cola e álcool, em 1884, exatamente no mesmo ano do primeiro artigo sobre cocaína publicado por Freud.

Também não deve ser coincidência quando o escritor e estudante de Medicina, Conan Doyle, publicou o famoso primeiro episódio de Sherlock Holmes – Um estudo em vermelho –, em 1887, no qual, entre outras características, o detetive apresenta quadro típico de dependência de cocaína.

Seria ousadia demais imaginarmos que tampouco foi só por coincidência que o escritor escocês, Robert Louis Stevenson, publicasse
seu famoso livro The strange case of dr. Jekyll and Mr. Hide (O médico e o monstro), em 1886, apenas dois anos depois? Stevenson retrata a figura do médico inteligente e cativante que busca uma grande descoberta; isola-se em seu laboratório e descobre uma droga que se autoadministra.

Por essa época, a literatura médica estava repleta de artigos escritos por pesquisadores médicos na busca de fármacos que fossem estimulantes do sistema nervoso central, para tratar diversas doenças, principalmente a melancolia. 

Vale aqui destacar os méritos, o pioneirismo e a genialidade do nosso Machado de Assis, descrevendo a busca incessante da panaceia universal como o “Emplasto Brás Cubas” – “um emplasto anti-hipocondríaco destinado a aliviar nossa melancólica humanidade” (Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1981).

Outro personagem machadiano, dr. Simão Bacamarte, em “tempos remotos”, em Itaguaí (RJ), fez de tudo para “estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal” (O alienista, 1882).

A saga

Pemberton baseou-se em um fortificante consumido na Córsega, França, à base de macerado de folhas de coca e vinho Bordeaux (Vin Mariani). Denominou seu xarope de Pemberton’s French Wine Coca, desceu a rua de sua casa e deixou-o na Jacob’s Pharmacy para ser comercializado. O dr. Pemberton dizia que aquele fortificante “curava todos os males da alma e do corpo”.

Conta a lenda que um freguês do estabelecimento reclamou de dores difusas, e o atendente colocou no copo uma porção do xarope de Pemberton e, inadvertidamente, completou-o com água carbonada, em vez de água comum. Comenta-se que o freguês deixou o estabelecimento já sem dor. A partir daí a lenda da Coca-Cola só cresceu.

O guarda-livros de Pemberton, Frank Robinson, tornou-se sócio no empreendimento. Sugeriu o nome Coca-Cola, juntando os dois ingredientes fundamentais do produto, e desenhou, no estilo cursivo, com sua própria caligrafia, a logotipia que até hoje compõe a logomarca do produto. Foi o pioneiro da vitoriosa e paradigmática história de marketing do famoso refrigerante.  Providenciou para que, já em 1886, aparecesse nos jornais a propaganda da Coca-Cola com a famosa frase: Cola-Cola Delicious!

Em 1891, o dr. Pemberton, por motivo de saúde, vendeu sua famosa fórmula e sua pequena empresa (que lhe dava mais prejuízo que lucro) para outro farmacêutico e empreendedor genial, Asa Griggs Candler, que logo em seguida criou a The Coca-Cola Company. A partir daí, a empresa não parou mais de crescer e dar lucro.

Freud

Quando jovem e em início de carreira, Freud era um pesquisador bastante dedicado e sonhava realizar uma grande descoberta. Após algumas pesquisas frustradas, deparou-se com textos sobre um alcaloide quase desconhecido – cocaína –, com potencial para ser a sua “grande descoberta”. Procurou estudá-lo e iniciou diversas experiências com ele, em si mesmo, em alguns amigos e em pacientes.

Escreveu uma cuidadosa monografia sobre a cocaína, em 1884, descrevendo sua história, seus efeitos e possíveis usos terapêuticos. Publicou, posteriormente, mais dois artigos, nos quais discute o grande potencial da cocaína para o tratamento como estimulante do sistema nervoso central. Indicou também a droga como terapia para pacientes dependentes de morfina, como ele mesmo. Dois episódios ficaram famosos. A descrição da cocaína, por um de seus discípulos, como um efetivo anestésico local, e a morte, por dependência de cocaína, de seu amigo Ernst Fleischl-Marxow.

Ao mesmo tempo em que se difundiam os conhecimentos sobre a cocaína, apareciam relatos dos variados efeitos colaterais e, principalmente, o alto grau de dependência química que causava. Freud conseguiu abandonar sua dependência após 10 anos de uso do alcaloide.


Sherlock

Já no primeiro livro de Conan Doyle, o dr. Watson – personagem que alguns autores consideram ser um alter ego do autor – apresenta algumas peculiaridades de Sherlock Holmes, como a prática de artes marciais: boxe, esgrima de armas brancas e bastão. Relata também sua aparência: “muito alto, possui mais de um metro e oitenta, extremamente magro, pálido, nariz fino. Dependendo do enigma do caso em que estiver envolvido, passa horas fumando cachimbo. Faz uso habitual de cocaína em protesto à monotonia. Diz-se que é um exímio violinista”.

A descrição do uso de cocaína por Sherlock aparece no segundo livro publicado – O signo dos quatro: “Sherlock Holmes tomou o frasco que estava sobre a borda da lareira e, abrindo um elegante estojo de marroquim, tirou sua seringa hipodérmica. Com os dedos longos, brancos e nervosos, ajustou a agulha delgada e arregaçou o punho esquerdo da camisa. Durante um momento pousou o olhar no pulso e no antebraço vigoroso, pontilhado de inúmeras picadas”.

É importante notar que embora a cocaína fosse uma droga legalizada durante a época vitoriana, o dr. Watson desaprovava seu uso. Esse fato demonstra que Conan Doyle acompanhava a literatura médica a respeito da dependência física e psíquica descrita em relação ao seu uso. Aliás, alguns autores afirmam que Doyle era dependente do alcaloide.

As experiências do pai da psicanálise com a cocaína colocaram em destaque, segundo Gurfinkel, em sua tese de doutorado, quatro importantes elementos na história da Medicina: o surgimento de um Freud psiquiatra e farmacologista, o advento da adicção como objeto de investigação, o modelo da autoadministração como método de pesquisa e a crença e abandono de um projeto de “cura milagrosa”.

Até quando foi utilizado o macerado de folhas de coca no famoso refrigerante? Ninguém sabe, mas seguramente foi utilizado apenas nos primeiros anos de comercialização do refrigerante.

 

Referências
Cesarotto O. Um affair freudiano: os escritos de Freud sobre a cocaína. São Paulo: Iluminuras, 1989.
Freitas LAP. Freud e Machado de Assis: uma interseção entre a psicanálise e literatura. Rio de Janeiro: Editora Mauad, 2001.
Gurfinkel D. O episódio de Freud com a cocaína: o médico e o monstro. Revista Latinoamericana de psicopatologia Fundamental 2008;11(3):420-436.
Gyveryoung-Witzer G, Witzel MK. A borbulhante história da Coca-Cola. Ribeirão Preto (SP): Novo Conceito, 2008.
Doyle AC. O signo dos quatro. São Paulo – Porto Alegre: Coleção L&PM, 2008.

 

*Reumatologista e doutor em Bioética

 

 


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