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PONTO DE PARTIDA (pág. 1)
Mauro Gomes Aranha de Lima - Presidente do Cremesp


ENTREVISTA (pág. 4)
Rubens Belfort Jr.


CRÔNICA (pág. 10)
Mariana Kalil


SINTONIA (pág. 12)
Tempos Líquidos


ESPECIAL (pág. 16)
Agrotóxicos


EM FOCO (pág. 22)
Sarcopenia


CONJUNTURA (pág. 26)
O maior de todos os vazios


GIRAMUNDO (pág. 30)
Arte, genética e ciência


PONTO COM (Pág. 32)
Mundo digital & tecnologia científica


HISTÓRIA DA MEDICINA (pág. 34)
Freud, Sherlock Holmes e Coca-cola


CULTURA (pág. 38)
A escola que revolucionou o design e a arquitetura


TURISMO (pág. 42)
Dubrovnik, a pérola do Adriático


MÉDICOS QUE ESCREVEM (pág. 46)
Música barroca e psicanálise


FOTOPOESIA (pág. 48)
Como nossos pais


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Edição 79 - Abril// de 2017

CRÔNICA (pág. 10)

Mariana Kalil

Não gosto de praia, dá licença?

 

Quando se fala em férias, logo surge no imaginário popular uma cena lugar-comum: areia branquinha, mar cristalino, um par de cadeiras debaixo de um guarda-sol colorido e pés para cima. Férias para a maioria das pessoas remete a praia, a banhos de mar, a horas e horas a fio de mergulhos, corpos ao sol, partidas de frescobol, caipirinhas, cervejinha gelada e camarões fritos. Eu fico apenas com a parte etílica e gastronômica, obrigada.

Só fui me dar conta já adulta de que fazia parte da turma da exceção. Quando a gente é criança, vai à praia porque castelinhos de areia e ondinhas no mar são o paraíso para pais desopilarem um pouco, entreter os filhos e ter a certeza de que os anjinhos voltarão exaustos e menos hiperativos para casa (pelo menos por algumas horas).

Quando cheguei à adolescência, ia à praia porque sim. Porque as amigas gostavam, porque ainda estava construindo minha personalidade e não queria me sentir um peixe fora d’água. Fazia parte da regra do jogo adolescente. Então, acometida de uma pseudo depressão, me enfiava naqueles sunquínis com a calcinha até o umbigo, me agarrava em um livro, sentava embaixo do guarda-sol fincado nos molhes de Torres (RS), epicentro da galera jovem, bronzeada e sarada dos anos 1990, e só levantava para ir embora.

Passava o dia assim:

Horas e horas enrolada em uma canga debaixo do guarda-sol querendo acreditar que minha intelectualidade lendo Nietzsche aos 18 anos sobrepunha-se a todas aquelas barrigas tanquinho, coxas bem torneadas e silhuetas douradas dos bem-aventurados corpos da minha idade. Os anos foram passando, eu saí da adolescência para a vida adulta e comecei a perceber que aquele habitat não era o meu. E o melhor: não havia nada de errado comigo.

Então, já com algum discernimento de mulher feita e consciente de que era normal (apesar de não gostar de praia, o que para muitas pessoas, incluindo minha mãe, soa como uma aberração), parei para tentar entender o porquê de não curtir um lugar tão desejado e idolatrado pela maioria dos mortais. Motivos não faltam.

Carregamento de tralhas: guarda-sol, cadeiras, jogo de frescobol, merendeira… Coloca no carro, tira do carro, caminha, caminha, caminha naquela areia quente com uma mudança nas costas, suando em bicas para tentar achar um canto de dois metros quadrados na areia. Esta é só a ida. Tem a volta parecendo um croquete com aqueles grãos de areia grudados no corpo gosmento e suado de protetor solar.

Areia: encarde o pé, entra nos olhos, cola no corpo, suja a bolsa, enfia-se entre a capinha e o celular… Isso quando não passa uma turminha de uns cinco amiguinhos brincando de pega­pega e joga uma revoada de areia na canga que você acabou de estender.

Mar: tenho problemas com água em geral. Por mais aquecida que esteja, sempre acho gelada. Portanto, entrar no mar é um verdadeiro suplício. E aguentar o biquíni molhado, então? E quando entra areia dentro do biquíni? E o cabelo duro de sal?

Necessidades fisiológicas: sempre chego na praia já pensando o que vou fazer quando der vontade de ir ao banheiro. Então, não bebo água e passo sede para não ter vontade de fazer xixi. Eu sei que a maioria dos mortais faz xixi no mar. Não os julgo. É assim desde que o mundo é mundo. Mas, se já não gosto de biquíni molhado, o que dirá molhado e mijado?

Banheiro público: resta, então, caminhar quilômetros até o banheiro público, isso quando a praia dispõe de algum. Com muita sorte, você encontrará papel higiênico. Com mais sorte ainda, o assento não estará levantado e todo mijado. E com a maior sorte do mundo (coisa que nunca tenho), ao levantar a tampa da privada você não topará com uma diarreia de cinquenta tons de marrom.

Frescobol: nem que tivesse nascido cachorro ia achar programa correr atrás da bolinha.

Caminhada: me convide para dar uma volta à beira-mar com o sol torrando meus miolos e o biquíni saindo do lugar a cada passo que se dá e você conhecerá uma face bem menos elegante da minha pessoa.

Mas sabe o que é melhor de crescer, amadurecer e se conhecer? É aceitar que nem sempre fazemos parte do senso comum e que não há nada de errado em pertencer ao time da exceção. Você também não gosta de praia? Deixa eu te falar uma coisa, então! NÓS SOMOS NORMAIS!

* Mariana Kalil é escritora e jornalista. Autora dos livros Peregrina de Araque: Uma Jornada de Fé e Ataque de Nervos no Oriente Médio; Vida Peregrina – Uma Jornada
de Desequilíbrios, Tropeços e Aprendizado; e Tudo
tem uma Primeira Vez. Diretora de conteúdo do site
www.ma­rianakalil.com.br


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