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Edição 66 - Janeiro// de 2014

EM FOCO (pg.12)

Wagner dos Santos Figueiredo


Masculinidade e cuidados da saúde


Os homens não comparecem aos serviços de saúde ou estes não estão preparados para atendê-los?

 

É bastante comum a afirmação de que os homens não se preocupam com a saúde e não se cuidam adequadamente. Essa ideia está associada à dificuldade apresentada por parte da população masculina em utilizar os serviços de saúde. Entretanto, essa compreensão – bastante habitual no senso comum e também presente em parte dos profissionais de saúde – necessita ser mais amplamente debatida, para que se possam implementar ações mais eficazes de atenção à saúde dos homens, como parece ser a intenção da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, lançada pelo Ministério da Saúde.

Se tomarmos como referência a produção científica, que estuda as relações entre homens e saúde – especificamente aquela direcionada a temas como os perfis de morbimortalidade e acesso e uso de serviços de saúde –, é possível, ao menos em um primeiro momento, concordar com essa afirmação. Os estudos sobre mortalidade, por exemplo, apontam que a cada três mortes ocorridas na população adulta, duas acontecem entre os homens. Na faixa de 20 a 30 anos, essa proporção é mais significativa, passando de quatro homens para cada mulher. Se levarmos em conta os estudos acerca do tempo médio de vida da população, ao mostrar que os homens vivem, em média, sete anos menos que as mulheres, podemos considerar que o cuidado com a saúde masculina não acontece de maneira apropriada.

Em consonância com esses dados, outros estudos indicam uma menor frequência regular dos homens adultos nos serviços de saúde. Apontam também marcadas diferenças por sexo quanto ao motivo da procura por eles. As mulheres os buscam mais para a realização de exames de rotina e prevenção, enquanto os homens procuram, predominantemente, por motivo de doença. Em síntese, os estudos epidemiológicos parecem comprovar a ideia generalizada de que os homens são menos preocupados quando se trata de cuidar da saúde.

Esses resultados devem, contudo, ser interpretados com maior profundidade.  Se parecem não deixar dúvidas quanto às piores condições de saúde da população masculina, a discussão acerca do menor acesso e uso de serviços de saúde, por parte dos homens, necessita ser mais bem dimensionada. Por exemplo, alguns estudos chamam atenção para a já importante presença dos homens nos serviços de saúde, em especial os de Atenção Primária à Saúde (APS). Segundo eles, a APS é o serviço mais procurado por ambos os sexos, destacando também, entre os homens, a prevalência na busca por farmácias e prontos-socorros.

Será que esses dados significam apenas uma menor preocupação com a saúde ou será que existem barreiras que dificultam não só a presença dos homens nos serviços, mas também a sua percepção deles? É em torno dessas barreiras que é importante discutir a relação dos homens com os serviços de saúde, enfatizando a busca pela APS.

As relações entre homens e saúde têm sido analisadas com base no referencial de gênero, compreendido como as condições histórico-sociais que constroem e estabelecem as relações sociais entre os sexos, permeadas por poder e desigualdade. Com enfoque nessas relações, é abordado o comportamento dos homens frente à saúde, enquanto parte do exercício da masculinidade.

Nessa perspectiva, os homens têm dificuldades de perceber suas necessidades de saúde, reprimindo-as e rejeitando-as. Com isso, negam possíveis fragilidades e vulnerabilidades, e se recusam a admitir dores e sofrimentos, resistindo mais para assumir que precisam de assistência à saúde. Quando resolvem enfrentar as resistências socialmente adquiridas, e reconhecem suas necessidades, encontram as barreiras de diferentes naturezas na busca por cuidados de saúde.

As dificuldades dos homens têm a ver, segundo alguns estudos, com a estrutura de identidade de gênero, a qual dificultaria verbalizar suas necessidades no contexto da assistência. Assim, os padrões inadequados de cuidados da saúde masculina estariam associados aos atributos valorizados pelos modelos de masculinidade hegemônicos, como força, poder e invulnerabilidade. A obrigação de se mostrar forte e detentor de um poder socialmente instituído contrapõe-se a qualquer possibilidade de um homem se perceber com algum tipo de necessidade de saúde, pois esta expressa a ideia de fragilidade.

Uma das barreiras que dificultam o acesso dos homens a esses serviços refere-se ao trabalho, considerado importante para a construção e manutenção dos valores identitários das masculinidades. Dessa forma, a procura por cuidados passa a ser relativizada. Os homens afirmam ter pouco tempo para cuidar da saúde. Os argumentos mencionados apontam para a responsabilidade em manter a família e cumprir seu papel de provedor. Outra barreira relacionada ao trabalho diz respeito às restrições impostas pelas empresas. Os homens dizem que as empresas não os liberam para procurar os serviços de saúde, dificultando ações de prevenção. Quando encontram um tempo para isso, precisam retornar logo ao trabalho, o que os torna, na visão dos profissionais de saúde, usuários mais impacientes.

As dificuldades encontradas pelos homens para acessar os serviços de saúde também podem ser percebidas na organização e rotina dessas instituições. Estudos salientam que elas têm uma influência importante na (re)produção do imaginário social de gênero, com  repercussões na atenção oferecida à população. Os serviços de saúde destinam menos tempo de seus profissionais aos homens e oferecem poucas e breves explicações sobre mudanças de fatores de risco para doenças aos homens quando comparado com as mulheres. Essas ações reforçam os padrões sociais de masculinidade e feminilidade associados às noções de cuidado em saúde.

Alguns estudos apontam que os ambientes dos serviços de APS não favorecem a presença e permanência dos homens, já que são espaços marcadamente femininos. Em áreas como sala de espera e recepção, predominam cartazes com forte conotação feminina, voltados, por exemplo, para a promoção do aleitamento materno e o pré-natal. Somado a isto, reforça-se a feminilização dos ambientes com a presença de material decorativo influenciado pelo imaginário feminino de gênero, produzidos pelos próprios funcionários. Vale ressaltar que investigações mais recentes, ao estudar as percepções dos homens sobre os serviços de APS, assinalam que, para eles, esses serviços destinam-se às pessoas idosas, mulheres e crianças, considerando-os como um espaço feminilizado, o que lhes provocaria a sensação de não pertencimento àquele ambiente.


Espaços feminilizados provocariam a sensação de não pertencimento àquele ambiente


Outra dimensão importante relacionada ao cotidiano do trabalho nos serviços de saúde, que aponta para a invisibilidade dos homens e de suas questões, refere-se à pouca incorporação deles em atividades programáticas da APS. Esses serviços são, tradicionalmente, voltados para o segmento materno-infantil e, mais recentemente, aos idosos. Poucos oferecem atividades destinadas à saúde dos homens. Em ações que a presença masculina poderia ser considerada importante, como planejamento familiar e cuidado dos filhos, não há incentivo à sua participação. A presença dos homens em atividades de prevenção e educação em saúde, importantes para lidar, por exemplo, com o cuidado de doenças crônicas, não é estimulada.

Por outro lado, os profissionais de saúde associam mulheres e homens em polos opostos quando se trata de pensar o cuidado à saúde, colocando os homens no de não-cuidado e as mulheres como cuidadoras. Assim, os homens, quando presentes nos serviços, sequer são notados, e a maneira como lidam com suas necessidades, pouco valorizada. Quando estão na condição de paciente, são orientados para que alguém (de preferência uma mulher) assuma a responsabilidade de seu cuidado. Ou quando se apresentam como cuidadores (por exemplo, acompanhando o filho à consulta médica), as orientações são sempre passadas para suas parceiras. Com isso, o sistema de cuidados de saúde constrói um comportamento de saúde dentro da referência dominante de atribuições de gênero, ou seja, mulheres cuidadoras e homens destituídos da responsabilidade de cuidar.

Em síntese, mesmo reconhecendo piores níveis de saúde dos homens, quando comparado às mulheres, e suas dificuldades para implementar práticas de cuidado com a saúde, há que se diferenciar atitudes pessoais e particulares diante do processo saúde-doença e os comportamentos valorizados socioculturalmente. Reforçar os valores tradicionais de gênero, reproduzidos socialmente – seja pelos próprios homens, mas também pelas mulheres e por diferentes instituições, como os serviços de saúde e seus profissionais –, contribuem para invibilizar as necessidades de cuidado para com eles. Assumir a existência de tais representações permite identificar obstáculos ou incentivos ao acolhimento dessas necessidades. Organizar os serviços nessa direção pode ajudar a começar romper as barreiras socioculturais que prejudicam o cuidado e as condições de saúde dos homens.

 

Wagner dé médico sanitarista e professor adjunto no Departamento de Medicina da Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar).
E-mail:
wagfig1@gmail.com

 


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