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PONTO DE PARTIDA (pág.1)
Renato Azevedo Júnior - Presidente do Cremesp


ENTREVISTA (págs.4 a 8)
James Drane


EM FOCO (págs.9 a 11)
Dormiu bem?


CRÔNICA (págs.12 a 13)
Tufik Bauab*


MÉDICOS NO MUNDO (págs.14 a 17)
Irène Frachon


DEBATE (págs.18 a 23)
Emergência e Regulação: novos desafios dos cursos de Medicina


SINTONIA (págs.24 a 27)
Novas práticas educativas no setor da Saúde


GIRAMUNDO (pág.28 a 29)
Curiosidades de ciência e tecnologia, história e atualidades


PONTO COM (págs.30 a 31)
Informações do mundo digital


HOBBY (págs.32 a 35)
Pediatra escala os maiores picos do mundo


HISTÓRIA DA MEDICINA (págs.36 a 38)
Especialidades médicas


LIVRO DE CABECEIRA (pág.39)
Por Bráulio Luna Filho*


CULTURA (págs.40 a 43)
Moacyr Scliar e Yann Martel


GOURMET (págs. 44 a 47)
Moqueca de camarão


FOTOPOESIA (pág.48)
Poesia anônima na capital paulista


GALERIA DE FOTOS


Edição 63 - Abril/Maio/Junho de 2013

SINTONIA (págs.24 a 27)

Novas práticas educativas no setor da Saúde

O significado da educação popular na Saúde

Eymard Mourão Vasconcelos*


A Atenção Básica à saúde no Brasil está muito marcada pela educação popular. Na década de 70, quando o modelo dominante era o de atenção hospitalar privada, baseada em médicos especialistas, muitos profissionais, descontentes, foram para periferias urbanas e áreas rurais começar experiências de saúde comunitária orientada pela educação popular. Eram tempos da ditadura militar, quando o tipo de crescimento econômico implementado no país aumentou muito a pobreza.

Mas era, também, tempo dos movimentos de resistência à opressão política e à exploração econômica. O trabalho comunitário em saúde começou a ser visto como uma forma de fortalecimento da sociedade civil para enfrentar os desmandos dos poderosos. As igrejas cristãs, orientadas pela Teologia da Libertação, foram parceiras fundamentais da maioria dessas experiências de saúde comunitária. A ação educativa era o instrumento mais importante para a organização do trabalho social. E a concepção de educação sistematizada por Paulo Freire era hegemônica nessas iniciativas. No diálogo e na valorização dos saberes e dos movimentos locais, muitas práticas assistenciais foram reorientadas, tornando-se mais adequadas à realidade da população e incentivadoras do protagonismo popular no enfrentamento de seus problemas.

A repressão política perseguia quem avançasse muito na organização comunitária. De um lado, essa violência amedrontava, mas, de outro, instigava resistências e heroísmos. Muitas das pequenas experiências de saúde comunitária, das décadas de 1970 e 80, expandiram-se e espalharam-se para outros recantos. Foram referências centrais para pensar o novo modelo de assistência à saúde que começava a ser construído, o SUS. Especialistas internacionais em saúde pública valorizam muitos desses elementos próprios do atual sistema de saúde brasileiro: as agentes comunitárias de saúde bastante integradas ao cotidiano da população, os grupos participativos para discussão e tratamento coletivo de problemas específicos de saúde, os conselhos locais, iniciativas coletivas construídas em conjunto com movimentos comunitários locais, formas participativas de gestão das equipes de saúde, incluindo funcionários de vários níveis de escolaridade; tudo isto nasceu e se difundiu a partir daquelas experiências pioneiras.



 

Com o processo de redemocratização da nação e as possibilidades abertas pela Constituição de 1988, o maior esforço dos profissionais de saúde progressistas se concentrou na organização do seu aparato de regulação legal e na administração do SUS. O trabalho comunitário local e as ações educativas junto aos movimentos sociais perderam visibilidade no cenário da saúde pública brasileira. A prioridade passou a ser a expansão dos serviços de saúde para toda a população. Após 25 anos de SUS, verifica-se, no entanto, que os inúmeros novos serviços expandidos tenderam a continuar presos ao modelo mais antigo de assistência, isto é, centrado no tratamento medicamentoso de sintomas, no olhar focado nos órgãos anatômicos das pessoas e na multiplicação de ações de saúde pública padronizadas, rotinizadas e burocratizadas.

No entanto, nos últimos anos, vem crescendo a consciência da necessidade de se priorizar o investimento na transformação do modo como a assistência à saúde é implementada. Com a expansão da estratégia de Saúde da Família, um número enorme de profissionais vem sendo inserido em serviços muito próximos das famílias e das comunidades. Essa proximidade os tem levado a perceber a ineficácia do modelo médico e sanitário tradicional. Está gerando uma angústia e uma busca de novos caminhos de enfrentamento dos problemas. Nesse contexto, assiste-se a um crescimento do interesse pela educação popular em saúde. Muitos profissionais vêm descobrindo a grande potencialidade de uma relação dialogada profunda com seus pacientes e com os grupos comunitários locais para a reorganização das práticas de assistência e de promoção da saúde. Mas vão descobrindo também que não basta querer aproximar e dialogar. Essa relação é difícil. Há muitos bloqueios culturais, distanciamentos pela desigualdade de poder e desentendimentos.

Percebe-se que os caminhos da educação popular, no atual contexto institucional das políticas de saúde, já não são os mesmos de décadas atrás. Novas realidades pedem novas práticas educativas. Quais são os caminhos de uma relação dialogada com a população no SUS atual, tão marcado pelo crescimento e complexificação da Atenção Básica? As mais significativas respostas não estão sendo dadas por grandes intelectuais do campo da saúde coletiva, mas, principalmente, a partir de experiências concretas desenvolvidas por estudantes, profissionais, professores, pessoas das comunidades e movimentos sociais, nas diversas frentes da assistência. É impressionante a riqueza de práticas de saúde inovadoras em vários recantos da nação. São, ainda, pontuais e esparsas, mas vão, aos poucos, espalhando-se por contaminação. A educação popular não está mais apenas nas comunidades, mas também nas universidades, secretarias de saúde e centros de formação profissional. Tem se descoberto a potencialidade dela para a formação dos doutores e para a organização de políticas de saúde mais adequadas.



Saúde da Família potencializa a relação de diálogo com pacientes, mas é preciso avançar na construção de
um SUS que valorize a alegria e a determinação dos profissionais no encontro com as comunidades.

 

Numa sociedade com tantos apelos para o consumismo e o individualismo, há uma grande legião de estudantes e profissionais, de todas as idades, que estão se entregando, com extremo ardor, à busca de caminhos para a superação da injustiça social, da pobreza e do sofrimento que ainda marcam a nação. Muitos são jovens altruístas, outros são pessoas experientes, cheias de dons e qualificações. Renegando os chamados para uma vida centrada em suas necessidades individuais, estão se dirigindo para as periferias e áreas rurais mais pobres e violentas do Brasil, em um movimento de solidariedade com muitos custos pessoais. São os novos heróis desta nação.

Foram desenvolvidas muitas reflexões bastante elaboradas sobre os caminhos da atenção integral. Isto representa um grande avanço. Mas conhecimentos e propostas teóricas não substituem a atitude de proximidade e abertura para o diálogo com o outro que, no trabalho em saúde, se apresenta de maneira tão diversa e inusitada. Tem-se assistido a muitos processos de educação profissional que são verdadeiras tentativas de enfiar “goela abaixo” conhecimentos progressistas voltados para a atenção integral. Desconsideram-se, muitas vezes, os saberes prévios e os valores diferentes, nesses processos de educação permanente, por considerar os profissionais de saúde em treinamento como alienados e presos a modelos médicos tradicionais. A angústia desses profissionais tem crescido muito.

Neste contexto, é urgente trazer para as práticas de educação permanente, no SUS, os aprendizados até há pouco centrados nas relações com as comunidades. Educação popular é mais do que uma concepção teórica de educação, pois inclui também uma atitude de vida. Uma atitude “popular” que valoriza a abertura aos oprimidos (da esposa do alcoólatra ao profissional do posto de saúde sufocado) e prioriza a contribuição dos subalternos (do desempregado ao estudante) no processo educativo e na reconstrução política da sociedade. Precisamos avançar na construção de um SUS que entusiasme seus trabalhadores, acolha e apoie a diversidade de projetos de felicidade e saúde existentes na sociedade brasileira, valorize o protagonismo dos vários grupos profissionais e comunitários na luta pela saúde e incorpore a emoção, alegria e determinação daqueles que escolhem o setor saúde para atuar. Não é fácil gerir tão amplo sistema de saúde de forma tão democrática, mas só teremos uma assistência integral, eficaz e humanizada se contarmos com a inteligência criativa e a empolgação dos profissionais no encontro com seus pacientes e comunidades.



* Eymard Mourão Vasconcelos é médico, com especialização em medicina interna e saúde pública, mestrado em educação, doutorado em medicina tropical e pós-doutorado em saúde pública; e professor do Departamento de Promoção da Saúde da Universidade Federal da Paraíba.


Crédito da ilustração: Antonio de Olinda, A chegada do médico, óleo sobre tela , 80x100cm. Cortesia Galeria Jcques Ardies

Fotos: Osmar Bustos


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