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CAPA

EDITORIAL
Ponto de Partida


ENTREVISTA
Roberto Sávio é o convidado especial desta edição


CRÔNICA
Rubem Alves


BIOÉTICA
Giovanni Berlinger


EM FOCO
Clínica ou Cirurgia? Eis a questão


DEBATE
Aprendizagem baseada em problemas


JUSCELINO KUBITSCHEK
O médico que virou Presidente


HISTÓRIA DA MEDICINA
São Lucas, o médico evangelista

LIVRO DE CABECEIRA
O segredo dos médicos antigos


GOURMET
Pequi: bom demais da conta


CULTURA
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CARTAS & NOTAS
Novas publicações do Cremesp


POESIA
Adriana e Luis Orlando Rotelli Resende


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Edição 22 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2003

JUSCELINO KUBITSCHEK

O médico que virou Presidente

JK - O médico que virou Presidente

Ricardo Balego*

A Medicina teve papel fundamental para a formação e a ascensão política de Juscelino Kubitschek, um dos mais importantes presidentes que o Brasil já teve, entre 1956 e 61; em 2002 foi comemorado o centenário de seu nascimento.

Falar em Juscelino Kubitschek de Oliveira como aquele que modernizou setores da economia e indústria brasileiras, que construiu hidrelétricas, que promoveu o Plano de Metas dos “50 anos em 5”, que abriu estradas, mudou a capital federal para Brasília, construída em apenas 42 meses, não é nenhuma novidade. O que pouca gente sabe é que antes do estadista existiu um outro Juscelino, o médico. Foi por meio da Medicina que acabou ingressando na vida pública. Sua história remonta à época de escola, em Diamantina, sertão de Minas Gerais, onde nasceu, em 2 de setembro de 1902, e viveu até os 19 anos. Findando os estudos na cidade, começava a ficar triste vendo todos os amigos sendo encaminhados para que continuassem a estudar na capital, Belo Horizonte. Nesse tempo já dizia que queria ser médico.

A condição da viúva Júlia Kubitschek, sua mãe, como professora primária, não permitia muito mais do que sustentar a casa, cuidando dos filhos Nonô, como era chamado Juscelino, e de Maria da Conceição, a Naná. O pai, João César de Oliveira, caixeiro viajante, fora vítima fatal de tuberculose quando o filho tinha apenas dois anos. A falta de condições financeiras de Júlia não impediu que o menino realizasse seu desejo. Auxiliado de forma decisiva por um grupo de amigos da família, logo estaria se mudando para a capital mineira; tanto para assumir o cargo de telegrafista, que conquistara em concurso anteriormente realizado, como para se preparar para o vestibular em Medicina.

Pouco tempo depois, já era calouro na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, dentro de uma rotina muito desgastante: trabalhava e estudava, sem esquecer-se da missa, que freqüentava sempre aos domingos pela manhã. As grandes amizades também surgiram, com destaque para Odilon Behrens e Pedro Nava; Odilon era bom jogador de futebol e Nava gostava de eventos mais intelectuais – se tornaria, depois, escritor.

Os mesmos amigos estranhavam a passividade de Juscelino com relação ao posicionamento político, tema efervescente entre estudantes da época. Entretanto, isso parecia ser somente estratégia de um jovem que preferia, naquele momento, adquirir o máximo de conhecimento possível. Os dotes para a política só viriam a emergir alguns anos mais tarde.

No terceiro ano da faculdade, ganhando melhor, mudou-se de um humilde quartinho de fundos para uma república e, logo depois, para a casa recém comprada por sua irmã, Maria da Conceição, e seu cunhado, o médico Júlio Soares, que também chegavam de Diamantina. Quando Juscelino estava no quarto ano, o cunhado conseguiu-lhe uma vaga para trabalhar com ele na 3ª Enfermaria da Clínica Cirúrgica da Santa Casa. Isso não o deixou inativo quando se formou, como muitos que saíam da faculdade. Começou preparando salas cirúrgicas, instrumentando, assistindo intervenções e aprendendo muito com o cunhado. Sua primeira operação foi a amputação de uma perna. No final desse mesmo ano, sofreu de esgotamento físico, pensando até ter contraído a doença que matara seu pai, a tuberculose. O alarme era falso.

A formatura veio em dezembro de 1927 e logo depois decidiu montar seu próprio consultório, novamente com a ajuda do cunhado e da irmã. Passou a ser um médico muito requisitado, sem tempo sequer para honrar os compromissos com sua noiva, Sarah Gomes de Lemos. Os dois se conheceram numa festa e ela sabia que os pa-cientes eram um bom motivo para perdoá-lo.

Especialização no exterior
Dois anos após ter se formado, Juscelino começou a vislumbrar uma especialização na Europa, oportunidade restrita a poucos naquele tempo, mas que ele estava disposto a tentar. Para tal, acabou rompendo o noivado com Sarah, que concordou com seus motivos. Esse fato o deixou muito triste. Vendeu seu carro recém adquirido, contraiu empréstimos e, novamente com o apoio de seus familiares, em 1930, a bordo do navio Formose, seguiu em direção à Paris, na França, considerada a capital mundial da Medicina na época, junto com a Alemanha. Fez especialização em Urologia na clínica do professor Maurice Chevassu, cirurgião renomado internacionalmente.

O curso exigia-lhe muita disciplina e dividia o tempo, ainda, com as aulas para o aprimoramento do seu francês. O contato com a cultura européia, as visitas à Catedral de Notre Dame e ao Museu do Louvre ficavam para os finais de semana. Eventualmente, cruzava figuras que, a exemplo do próprio Juscelino, viriam a ser conhecidas no futuro como Cândido Portinari, que também estudava em Paris na época. Ainda na Europa, reatou, por carta, seu namoro com Sarah, fato que o deixou aliviado.

Iniciação política
Ao retornar para o Brasil, Juscelino já tinha em mente dois objetivos que se concretizaram em 1931: casar-se com Sarah e ingressar na Força Pública de Minas Gerais, servindo no Hospital Militar, como Oficial-Médico. Um ano depois ele defenderia seu Estado como Capitão-Médico, durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Nesse período, acabou conquistando a confiança do delegado federal Benedito Valadares Ribeiro. Com o final da revolução, Valadares foi designado por Getúlio Vargas como o interventor de Minas Gerais e este acabou nomeando Juscelino como seu secretário de governo.

JK elegeu-se deputado federal pelo Partido Progressista e teve atuação apagada até 1937, quando, com o Estado Novo, Getúlio Vargas fecha o Congresso. O jovem político resolveu, então, voltar a se dedicar somente à medicina, retomando o status de grande médico na capital mineira. Foi surpreendido novamente quando, em 1940, o governador Benedito Valadares o indicou novamente, agora para prefeito de Belo Horizonte. Com a alcunha de “prefeito furacão”, Juscelino teve boa atuação e esse fato, associado aos futuros desdobramentos políticos do país nos anos que se seguiram, consolidaram sua estratosférica carreira política: foi deputado federal pela segunda vez em 1945, governador em 1950 e presidente da República em 1956. Ainda seria senador, teria seu mandato cassado e se exilaria na Europa, para depois voltar de vez ao país. No fatídico 22 de agosto de 1976, sua trajetória seria interrompida por um acidente no quilômetro 165 da Via Dutra, quando ia de São Paulo para o Rio de Janeiro.

Quanto à Medicina, JK não voltou mais a exercer após se enveredar de fato na política. Porém, sem ela, talvez não tivesse chegado aonde chegou. Começou preparando salas cirúrgicas, instrumentando, assistindo intervenções. Sua primeira operação foi a amputação de uma perna.

“Transplantou o coração do país”
Entre saudades e grande orgulho, Maria Estela Kubitschek Lopes, a Maristela, filha de Juscelino, lembra que a Medicina foi decisiva na vida de seu pai. Arquiteta, trabalha em projetos culturais e sociais, “herança de meus pais”, como lembra. Casada há 40 anos, tem três filhos e duas netas. Dedicou grande parte do ano de 2002 a homenagens prestadas pelos 100 anos de JK.

SER MÉDICO. Como era ter, além de um estadista, um médico na família?
MARISTELA KUBITSCHEK. Sempre tive muito orgulho de meu pai, não só como político, mas também como médico. Márcia (sua irmã) e eu não éramos nascidas quando ele ainda exercia a profissão, porém, sempre ouvimos os elogios que lhe faziam pela sua capacidade como cirurgião e sobretudo pelo trabalho que exercia com ética e humanismo. Só tenho motivos de orgulho por sua postura sempre atenta àqueles que não tinham recursos e que, ao procurá-lo, eram tratados sem nenhuma distinção.

SER. Há alguma situação curiosa de seu pai com relação à medicina e à você?
MARISTELA. Embora não exer-cesse mais a profissão, Juscelino sempre foi o médico companheiro da família. Em todas as cirurgias ou doenças que tivéssemos ele era sempre o primeiro a chegar, querendo saber de tudo e assistindo às operações. Sei que ele sentiu uma grande alegria ao ver suas netas nascerem, ficando de mãos dadas comigo dentro da sala de parto. Quando do nascimento de meu filho João César, seu único neto, ele estava no exílio mas, mesmo longe, me ligou dizendo que estaria comigo em pensamento e em suas orações.

SER. Acredita que a formação médica de JK o auxiliou na forma como governava e administrava?
MARISTELA. Tenho certeza de que sua formação médica foi fundamental na administração e na forma como sempre governou. Ao especializar-se na França, em 1930, além do aprendizado formal, ele absorveu e aprendeu sobre tudo o que acontecia no continente europeu, num espaço entre as duas guerras mundiais, com todos os problemas que o povo sofria. No seu consultório e na Revolução de 32, pôde também aprender sobre as necessidades imensas do povo brasileiro, sua miséria, falta de atendimento médico e escolar. Como ele mesmo dizia, foi o Presidente Médico a fazer o “primeiro transplante de coração do mundo, ao transferir a Capital do litoral para o centro do país, irrigando-o com artérias em forma de estradas e fornecendo o oxigênio necessário em forma de energia para que o país pudesse desenvolver-se”.

* Ricardo é estudante do último ano de Jornalismo na Cásper Líbero e estagiário na Assessoria de Imprensa do Cremesp

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