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CAPA

PONTO DE PARTIDA (pág.1)
Renato Azevedo Júnior - Presidente do Cremesp


ENTREVISTA (pág. 4)
José Feliciano Delfino Filho


CRÔNICA (pág. 10)
Tufik Bauab*


EM FOCO (pág. 12)
Voluntários do Sertão


SINTONIA (pág. 15)
Emerson Elias Merhy*


DEBATE (pág. 18)
A relação médico-paciente e a internet


GIRAMUNDO (págs. 24 e 25)
Curiosidades da ciência e tecnologia, da história e atualidade


SAÚDE NO MUNDO (pág. 26)
O sistema de saúde público no Japão


HISTÓRIA DA MEDICINA (pág. 30)
Epidemias: os grandes desafios permanecem


CARTAS & NOTAS (pág. 33)
Conexão com o usuário a um clique


HOBBY (pág. 34)
Alexandre Leite de Souza


PONTO COM (págs. 38/39)
Informações do mundo digital


CULTURA (pág. 40)
Imperdíveis exposições da Pinacoteca


TURISMO (pág. 42)
Das flores de Bali ao enxofre do Ijen


LIVRO DE CABECEIRA (pág. 47)
Dica de leitura de Desiré Carlos Callegari *


FOTOPOESIA( pág. 48)
Adélia Prado


GALERIA DE FOTOS


Edição 58 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2012

ENTREVISTA (pág. 4)

José Feliciano Delfino Filho

Precisamos dar mais risadas e colocar na vida um nariz de palhaço”

Médico, redator humorístico, major, escritor, compositor, entre outras atividades, Zezo acha que o humor fez dele uma pessoa melhor, e que seus colegas estão trabalhando muito, às vezes desvinculando-se da vida

Jeito de nerd, sério, médico major da Polícia Militar de São Paulo, o nefrologista José Feliciano Delfino Filho, o Zezo – que nem sabe contar piadas –, não leva jamais alguém a imaginar que tenha sido redator de textos de humor do programa Bronco, de Ronald Golias, e de alguns quadros encenados por Chico Anísio. Por causa da Medicina, ele deixou a televisão, mas o espírito inquieto o levou a fazer inúmeras outras atividades. Foi um dos criadores e principal redator do site de humor Hienas, famoso em sua época. Escreveu peças de teatro, roteiro de cinema, colunas em jornal, fez programas de rádio, compôs músicas, e teve uma banda, a NDA (Nenhuma das Anteriores), sob os pseudônimos de Zé Feliciano, Zezo ou Thiago Filho (este em homenagem a seu primeiro filho, que faleceu logo após nascer). Nos últimos anos, escreveu alguns livros: John Lennon esteve aqui ontem à noite, again; e Fuja, Deus, fuja (título provisório), em revisão para lançamento, quando do fechamento da revista. Casado, pai de uma estudante de Medicina e de um arquiteto, Zezo é diretor técnico adjunto do Hospital da Unimed Sorocaba, cidade onde mora; é chefe do pronto-socorro no mesmo hospital, atende em um posto de saúde do SUS na cidade de Votorantim e faz plantões em finais de semana em um hospital psiquiátrico. Fez pós-graduações em Medicina do Trabalho e em Saúde Mental e... ah!... pratica caratê duas vezes por semana. Se não fosse o humor, acha que seria um “cara chato e neurótico”, e que seus “colegas médicos deveriam dar mais risadas e olhar a vida colocando nela ‘um nariz de palhaço’”.

Ser Médico: Como você começou a escrever textos humorísticos?
Zezo:
Sempre gostei de escrever e destacava-me escrevendo redações nos tempos de colégio. Compunha também letras de músicas para festivais de Sorocaba. Quando fui para a universidade, afastei-me da escrita, mas sentia que faltava uma complementação. Sou míope de cinco graus, era ruim de bola, péssimo na natação – se eu cair na água me afogo –, além de ser nerd de tanto estudar (risos...). Um dia, quando fazia residência no Hospital das Clínicas da Fmusp, em São Paulo, encontrei, por acaso, a irmã de um amigo, ao descer a avenida Rebouças. Ele tinha uma agência de publicidade perto dali, na avenida Brasil. Resolvi visitá-lo e, quando cheguei lá, o Ronald Golias tinha acabado de sair do escritório dele. Ele perguntou: “você já pensou em escrever textos de humor”? Respondi: “você deve estar brincando!”. Nem sei contar piada!

SM: E aceitou o convite?
Zezo:
Achava extremamente difícil fazer humor. Drama parece mais fácil, né? Eu me via como um cara que fazia boas redações. Agora escrever um programa de humor para televisão... Mas meu amigo falou para eu pensar a respeito. O Golias estava voltando para a televisão, após sete anos de ausência; era final de 82. Em seguida, fui a um supermercado, no Shopping Eldorado, comprar algo para comer. Levei também três canetas Bic e um saquinho de papel. Você acredita que eu escrevi o programa no saquinho, enquanto subia a Rebouças, de volta ao HC? Dois dias depois, entreguei o manuscrito, pois eu não sabia datilografar nada. Wilson Peron, o meu amigo, pegou, leu, achou-o bom e me convidou para uma reunião com o pessoal do programa, na qual estavam presentes o Carlos Alberto de Nóbrega, o Golias e vários redatores do Rio de Janeiro. Fiquei apavorado. Afinal, eles eram ídolos e referências naquela época. Lembro-me que alguém estava com sede e pediram para comprar água. Candidatei-me na hora. Nesse meio tempo, um outro amigo, que também era redator, passou meu texto para o Carlos Alberto. Acho que se eu não tivesse saído para ir buscar água, não teria dado certo. Ele gostou e, a partir daí, comecei a escrever textos de humor para o programa, que se chamava Bronco, na TV Bandeirantes.

SM: Como era sua participação?
Zezo:
Éramos quatro redatores e o redator final, que lia tudo e juntava os melhores trechos. No último ano, saiu quase todo mundo; ficamos só eu e o Arnaud Rodrigues, que depois foi para A Praça é Nossa. Fiquei sozinho, também como redator-final. Era muito interessante, pois tínhamos de escrever uma comédia por semana, com 12 personagens. Cada fala tinha de ser uma piada. Em três anos trabalhando para o Golias, escrevi 140 comédias, com uma hora de duração, para 12 personagens, além dos convidados. Tínhamos que fazer um humor de bom nível para um sábado à noite. Trabalhei, entre outros, com Nair Belo, Renata Fronzi, Rogério Cardoso, e Sandra Annenberg, que, atualmente, faz o Jornal Hoje. Na época, era atriz. Era um pessoal muito novo. Tinha também o Tácito Rocha, do grupo Cia Estável de Repertórios, do qual participava também o Antônio Fagundes, com quem jantávamos, algumas vezes, às terças-feiras, quando estavam com uma peça no Teatro Sérgio Cardoso. Acabei conhecendo o Chico Anísio, que me convidou para assistir a um show dele no Teatro Palladium, em São Paulo, e pediu para eu escrever um texto. Escrevi um sobre uma velhinha prostituta que vai pedir auxílio no INSS. Foi encenado durante uma comédia estilo stand-up, Monólogos II. O Chico fazia a prostituta e o Carlos Alberto de Nóbrega, cuja imagem era projetada em um telão, o cara do balcão do INSS surpreso com o pedido daquela senhora, pois ela pedia auxílio pelos serviços prestados ao longo da vida, como trabalhadora social. A velhinha dá uma série de argumentos engraçados. E por aí vai... O público aplaudiu, pois tinha uma crítica político-social. A partir de então, estreitei minhas relações com o Chico, e me aproximei de outros humoristas, como Rogério Cardoso, para o qual escrevi vários esquetes. Depois fiz trabalhos para várias agências de publicidade. Tinha um programa na rádio Cruzeiro do Sul, no qual contava a história da música popular brasileira. Também escrevia crônicas para jornais de Ribeirão Preto.

SM: Por que você parou de escrever para o programa do Golias?
Zezo:
Parei em 86, quando ele estava saindo da TV Bandeirantes para ir para o SBT. Eu teria de dedicar mais tempo ao programa, mas tinha outros compromissos: estava terminando a Residência, era casado com uma médica e tinha dois filhos. Não tinha tempo. Morava em Botucatu e vinha de ônibus para São Paulo. Chegava na Bandeirantes para acompanhar as gravações, que terminavam por volta das 10 horas da noite. Depois ia jantar com o pessoal e voltava para casa. Entre ida e volta, gastava seis horas só na viagem. Na Residência, trabalhava cerca de 12 doze horas por dia. Às vezes, escrevia durante os plantões, quando estavam tranquilos.

SM: Como surgiu o Hienas, considerado um dos melhores sites de humor em sua época?
Zezo:
Criamos o site em 1999 e o mantivemos até 2002. Começamos escrevendo para jornais. Um dos meus irmãos, Anderson Delfino (codinome Dick Traço), fazia os cartuns, e eu, o Juacir Alves e o Francisco Ildefonso escrevíamos as piadas. A coluna era publicada em cerca de 90 pequenos periódicos do Estado de São Paulo. Chegou até o Paraná. Fazia tanto sucesso que, quando a colocamos na internet, começou a bombar. Aí resolvemos montar o Hienas na internet. Na época, os sites eram relativamente novos e não dimensionamos o trabalho que teríamos. A página tinha de ser atualizada constantemente, mas nós a renovávamos duas vezes por semana. Não tínhamos uma equipe exclusiva para isso. Nossos filhos ainda eram pequenos e tínhamos nossos trabalhos. Tivemos de parar, mas era muito gratificante. O Zé Simão citou o site várias vezes em sua coluna na Folha.

SM: Como faz para coordenar a escrita com o trabalho médico?
Zezo:
Perguntava-me, antigamente, sobre o que leva o médico a escrever, pois muitos são escritores, e cheguei à conclusão de que tem tudo a ver. Temos facilidade para ouvir o outro. A pessoa senta na nossa frente e conta sua vida. Vamos juntando milhares de histórias ao longo do tempo –, alegres, engraçadas ou tristes. E, às vezes, não temos uma boa válvula de escape, como o esporte ou a música. No meu caso, a escrita foi uma forma de dissimular essa realidade pesada. Atuei em hospitais de hanseníase durante 14 anos, trabalho na Polícia Militar, em hospital psiquiátrico; atendo, como nefrologista, doentes renais crônicos. Cuido de pacientes graves, com prognósticos bastante reservados. Quando meu filho, Lucas, era pequeno, ele tinha muito medo de escuro. Eu pedia que ele me contasse o que estava acontecendo e ele dizia que fechava os olhos e via monstros. Aí eu falava para ele colocar nariz vermelho no monstro e pés bem grandes. Lucas respondia que assim ele tropeçava, e dava risada. Eu não sabia, mas era mais ou menos a minha história. Mais tarde, após ver tantas mazelas, acabei colocando nelas um “nariz de palhaço”.

SM: O humor o ajudou a se tornar uma pessoa diferente do que era?
Zezo:
Muito melhor, sem dúvida. Uma das formas de ser otimista é ter bom humor e amizades. O humor muda o ângulo do qual vemos as coisas. Se você passa mal ou briga com o chefe, pode ser um drama. Mas pode também ser engraçado, se você conseguir explorar esse lado. Fiz isso com os pacientes, transformei situações em casos engraçados. Mas primeiramente tive de fazer comigo. Comecei a ver a realidade de outra forma. Continuei a ver a doença profissionalmente, mas de outro ângulo, mais suportável. Isso acabou se refletindo no meu trabalho. Passo aos meus pacientes ângulos que façam a doença não pesar tanto.

SM: Você acha que seus colegas médicos deveriam rir mais?
Zezo:
Acho, primeiramente, que os médicos estão trabalhando demais. Muitos de nós encaramos o lado de sacerdócio da Medicina de forma negativa, desvinculada da vida. A família e os tempos de lazer são deixados de lado, e ninguém é completo sem isso. Todos sentem falta de uma brincadeira, de um esporte, de uma atividade. Percebo que falta a muitos colegas uma melhor qualidade de vida. Tem gente que pinta, decora, faz artesanato, pois assim se torna mais humano. O médico não consegue ser completo se não estiver inserido na sociedade. Se você não vivenciar o dia a dia como uma pessoa comum, vira apenas um técnico.

SM: Rir, então, ainda é o melhor remédio?
Zezo:
Definitivamente é o melhor remédio. Precisamos dar mais risadas, ser bem humorados, olhar a vida colocando nela o “nariz de palhaço”. Carlos Drummond tem um verso que diz “meus ombros suportam o mundo/e ele não pesa mais do que a mão de uma criança”.

SM: No momento, está escrevendo algo?
Zezo:
Terminei, na semana passada, um romance de 400 páginas. O título provisório é Fuja, Deus, fuja. É sobre a descoberta de uma partícula – como a busca do Bóson de Higgs –, a qual, na verdade, é o próprio Deus. Aí todas as religiões querem ficar com o monopólio dele e ficam desesperadas para ver quem vai chegar primeiro a Ele. Acabam concluindo que seria melhor “matar” Deus, pois assim permanecerá a dúvida se Ele é católico, judeu, islamita... Daí o título, Fuja, Deus, fuja. Está com a editora e deve ser lançado na Bienal do Livro, se tudo der certo.

SM: E a carreira de médico da Polícia Militar? Os militares são ainda mais sérios que os médicos...
Zezo:
Ser major me ajudou a ser mais disciplinado. Do contrário, não conseguiria escrever livros, cuidar da família, dar plantão... Por outro lado – sem pretensão – acho que trouxe para o ambiente militar um “olhar” mais humanizado. Pensa-se na polícia como um órgão militar somente, mas existe a polícia como paciente.

SM: Além de médico, e redator humorístico, você fez, e faz, muitas outras coisas.... Dá para resumi-las?
Zezo:
Participei de uma banda, a NDA. Chegamos a gravar um CD. Compus cerca de 300 músicas e ganhamos cinco festivais. Escrevi também uma peça de teatro – Noite americana –, um tipo de humor meio Woody Allen, mais cabeça. Fui também um dos roteiristas do filme Cassiopeia, a primeira animação feita por meio de computação gráfica no mundo, antes do Toy Story, da Disney. Na época, eu não sabia que estava brigando com o Steve Jobs (risos..). Escrevi o roteiro de um filme publicitário em desenho animado – A turma do Pelé –, e livros – John Lennon esteve aqui ontem à noite, em parceria com o Juacir Alves, e, sozinho, John Lennon esteve aqui ontem à noite, again. A primeira versão do livro foi lançada na internet em 2001. Depois foi impresso em pequenas quantidades, porque a gente não acreditava que alguém iria comprar. Mas compraram... (risos...). A editora propôs o relançamento, mas meu amigo não quis continuar. Então, fiz sozinho. Remontei a história inteira, criei um cara maluco pra caramba, acho que meu alter-ego está ali. Escrevi também um conto para o livro Humor vermelho II, e outro conto para o livro Humor vermelhinho, este para crianças, sobre a ida do bicho-papão ao analista porque já não assusta mais ninguém.

SM: Como é esse alter ego?
Zezo:
É o que gostaria de ser. Queria ser um porra louca nos meus tempos de música. Ter seguido carreira de compositor, quando tive chance. Quando fui pra televisão, desisti facilmente. No fundo, de tudo que eu fiz, se fosse obrigado a escolher, acho que gostaria de ser músico.

SM: Qual programa de humor atual é referência para você?
Zezo:
O CQC, que é também uma boa crítica política, e exige um nível de informação maior por parte do público. Se você optar por um humorismo mais escrachado, tem o Zorra Total, que exige menos do espectador.

SM: Se não fosse o humor ou a literatura, como acha que você seria?
Zezo:
Um cara chato e neurótico. Não teria uma boa conversa, nem a quantidade de amigos que tenho. Não me divertiria; não teria visto nem a metade das peças que vi.

SM: Alguma pergunta que gostaria de fazer para você mesmo?
Zezo:
Perguntaria-me se valeu a pena, e responderia que sim. Tive a oportunidade de fazer tudo o que queria na minha vida. Vim de uma família muito humilde, meu pai era balconista em uma farmácia, com quatro filhos. Minha mãe é semi-analfabeta. Consegui me formar em uma universidade pública e ser escritor. E tenho tido sucesso na carreira médica.


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  • Sim, está confirmado: Deus é brasileiro, mas... reside em Miami!
  • Se todo homem tem um preço, pelo jeito eu sou amostra grátis.
  • Mostre um caminho a um político e ele... colocará um pedágio.
  • O que Deus criou só o silicone sustenta.
  • A violência no trânsito é tamanha que o sinal mais visto nos cruzamentos é o sinal da cruz.
  • O Brasil tem saída... Mulheres e crianças primeiro.

TRANSGÊNICOS
MARIDO: - Mulher, não olhe agora, mas a sobremesa acaba de devorar o nosso filho.
 
VIDA DE CACHORRO
Filho – Mamãe, você precisa parar de dizer que o papai é um cachorro.
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Filho – Ontem, quando a empregada chegou, ele começou a pular
e a lambê-la inteirinha.
Mãe – Cachorro!



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