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Edição 21 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2002

CULTURA

Adriana Bertini

A Arte Engajada de Adriana Bertini

Atrás da aparência absolutamente comum de Adriana Bertini, vive uma inquieta “artista engajada”, rótulo incômodo para muitos, mas assumido por ela. Talento, criatividade, habilidade manual e ativismo social, unidos, dão forma a uma arte decorativa feita com preservativos dispensados pelo controle de qualidade das indústrias. Um misto de sobreposição, colagem e pigmentação transforma centenas, às vezes milhares, de camisinhas em glamourosos vestidos, luminárias, ramalhetes de flores, colchas, pufes ou qualquer outra forma à disposição da fértil imaginação de Adriana.

É um trabalho original de fôlego que já soprou longe, conquistou espaço internacional ao conseguir ser destaque entre os quase 70 artistas presentes na 14ª Conferência Internacional da Aids em Barcelona, no último mês de julho. A obra de Adriana nunca freqüentou galerias nem páginas de crítica de artes no Brasil, mas foi festejada por muitos veículos de comunicação da Espanha, inclusive o importante jornal El País, que a apresentou em um generoso artigo de uma página inteira sob o título principal “El Glamour del Látex”.

O forte conteúdo social de sua obra e vida é fruto da educação austera do pai, um sociólogo militante de causas sociais e da área de saúde, além de se-vero crítico ao consumo. Da mãe dentista herdou habilidades manuais para a costura, o tricô, a pintura e a moldagem. No consultório da genitora aprendeu a manipular materiais de prótese dentária como metal, cerâmica, gesso, massas acrílicas, resinas etc.

Adriana já fez muito em pouco tempo. Dedicou anos à formação de atriz, mas desistiu da carreira; fez cursos técnicos de prótese dentária e de decoração de interiores voltadas à cenografia, foi voluntária do Gappa em Florianópolis e do Green-peace. Ajudou na limpeza de praias, viajou pelo Nordeste para um trabalho voluntário independente de educação sexual em uma tribo indígena, viveu em palafitas e com comunidades pobres. Também trabalhou para confecções de griffe e fez cenários para teatro. Pensa em estudar medicina, mas “diploma não é mais importante que as vivências e experiências”. Aos 31 anos, a híbrida Adriana tem aptidões incomuns. Domina técnicas hoje pouco difundidas e valorizadas, mas fundamentais para a autonomia em seu trabalho. Artista ou artesã, ela mesma costura os vestidos, sabe acender fornos de alta gradação, conhece as técnicas de fundição, fabrica as próprias tintas, pesquisa pigmentos, colas e (ufa!) muito mais.

Inicialmente, seus trabalhos com preservativos foram influenciados pela moda. Depois, criou uma série de vestidos para o ensaio Divas, uma releitura de trajes usados por Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Marlene Dietrich, Audrey Heppburn, Carmem Miranda e Vivian Leigh. “A mulher é o símbolo máximo da sexualidade, um ótimo referencial para se vincular ao sexo seguro”, afirma. “É importante alertar sobre os perigos do HIV sem advogar pela abstinência do prazer sexual, o que seria impossível. Quando uma família vê uma exposição com esse material no Sesc Itaquera (onde expôs em março deste ano) por exemplo, ela pode, depois, conversar sobre sexo e camisinha com mais naturalidade”, opina.

Ela sabe, e como sabe, das dificuldades de aceitação e de sobrevivência pela arte. Para as galerias, suas obras não têm valor comercial, são efêmeras — as camisinhas deterioram-se em dois ou três anos —, o caráter decorativo e a temática engajada que a tornaram conhecida são vulgares para o elitizado universo das artes plásticas e para os acadêmicos da estética moderna. Também viveu sob o estigma da vulgaridade de nada menos que Andy Warhol, o ícone da pop art, engajado na causa da popularização da arte como produto de consumo.

Como 1º de dezembro é o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, todos os convites para expor que Adriana recebe concentram-se nesse mês, mas ela não dispõe de uma quantidade de obras que possibilite atender a todos. Com exceção do Sesc Itaquera, suas exposições sempre estiveram reduzidas a espaços como salões de Ongs ou entidades comunitárias na favela, salvo às vezes que a curiosidade da indústria do entretenimento levou algumas de suas obras para frente dos holofotes, como o Programa do Jô, ou a MTV, que por algum tempo utilizou uma colcha de preservativos na cama em que a apresentadora Babi fazia o programa Erótica MTV. As obras também estão expostas no site http://www.adrianabertini.com.br

Sua investigação sobre a versatilidade e a durabilidade do preservativo levou-a a um processo de desconstrução diletante que evoluiu para um experimento estético rebuscado apresentado na série Peles e Carnes. Adriana demonstra amadurecimento impressionante nesses trabalhos, trazendo à tona algo ainda mais original que a composição utilitária, por meio da disposição formal de camisinhas, apoiada na figura e na forma. Na série, Adriana abandona a figuração cômoda e tateia uma vertente fauvista tensa e perturbadora.

Não fosse Adriana um enigma, um poço de inquietude e dinamismo, seria possível arriscar que é uma promissora artista em ebulição. Porém, como ela mesma diz, tudo é cíclico em sua vida. “Às vezes paro de fazer algo, não porque largo no meio do caminho, mas porque se esgotam. O que faço com os preservativos vai se esgotar em algum momento, mas antes quero desenvolver um trabalho que possibilite a visualização do vírus HIV pela arte, das secreções onde ele vive etc. Também quero explorar a tuberculose e a fome dentro da temática arte e saúde”. Em Barcelona, conheceu um artista plástico que faz esculturas com pão. Interessou-se pela técnica e pensou em associar a exploração dessa matéria prima com a fome. Talvez essa próxima viagem de Adria-na surpreenderá, mais uma vez, pela originalidade. Talvez ela vá estudar medicina. Talvez...


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