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CAPA

PONTO DE PARTIDA (pág. 1)
Renato Azevedo Júnior - presidente do Cremesp


ENTREVISTA (pág. 4)
Mia Couto, biólogo e jornalista moçambicano


CRÔNICA (pág. 8)
Homenagem a Moacyr Scliar, médico e escritor, falecido em janeiro deste ano


SINTONIA (pág. 10)
Surge um novo conceito de doença e de saúde


CONJUNTURA (pág. 13)
Identificação possível


SAÚDE NO MUNDO (pág. 14)
Saúde Global versus Saúde Internacional


DEBATE (pág. 17)
A qualidade das embalagens comercializadas no país


GIRAMUNDO (págs. 22/23)
Curiosidades da ciência e tecnologia, da história e da atualidade


PONTO COM (pág. 24)
Acompanhe as novidades que agitam o mundo digital


EM FOCO (pág. 26)
Transtornos afetivos na infância


LIVRO DE CABECEIRA (pág. 29)
Confira a indicação de leitura de Caio Rosenthal*


CULTURA (pág. 30)
José Marques Filho*


GOURMET (pág. 36)
Uma receita especial de Debora Handfas Gejer e Geni Worcman Beznos


TURISMO (pág. 40)
A "suíça brasileira" bem ali, na Serra da Mantiqueira...


CARTAS & NOTAS (pág. 47)
Diretores e conselheiros da terceira gestão 2008-2013


POESIA( pág. 48)
Mia Couto em “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”


GALERIA DE FOTOS


Edição 55 - Abril/Maio/Junho de 2011

CULTURA (pág. 30)

José Marques Filho*

Arte e artrite na vida de

Por trás da alegre leveza da pintura, um corpo dolorido e mãos sofridas pela doença


Mãos de Renoir, em foto de 1915 publicada pelo British Medical Journal

Alguns autores dividem a obra do pintor Pierre August Renoir em quatro períodos, considerando como mais importantes o segundo e o último. No segundo e mais conhecido, o impressionista pintou várias paisagens, embora o conjunto da obra seja marcado pelo retrato da vida social urbana parisiense. Em 1876, produziu quadros famosos como Nu ao sol, O balanço e, a de maior impacto, Le Moulin de la Galette, no qual conseguiu criar uma atmosfera de alegria à sombra de árvores, com tonalidades intensas de azuis, raras à época. A última fase, bastante produtiva e caracterizada pelo retorno à vivacidade da juventude, coincide com o início de sua grave doença.


O Balanço, de 1876. Jogo de luz e sombra exprime os efeitos do sol sobre a cena

Nesse período, Renoir reafirmou sua personalidade artística que se traduziu especialmente em grandes nus, executados em plena doença, com incapacidades físicas e sofrimento. Apesar de acometido por fortes dores, nunca deixou de pintar e trabalhou muito até a morte, para incredulidade  geral. Praticamente in-válido, idoso e, às vezes, depressivo e mal-humorado, pintou enormes banhistas, mulheres portentosas de explosiva vitalidade, em contraste com a sua terrível realidade. As pinturas transbordam amor pela vida. As telas reúnem magistralmente a linha, a cor, o volume e a luz.

Segundo a historiadora de arte Barbara White, ele teve de mudar o estilo de vida por causa das incapacidades físicas. As últimas obras perderam um pouco da genialidade das anteriores, mas ao mesmo tempo que se tornou menos detalhista ficou mais solto e livre. Dentre o importante número de artistas acometidos por doenças reumáticas, Renoir foi um dos poucos que não teve a criação e a produção afetadas pelo sofrimento. Nunca permitiu que a obra refletisse o seu profundo mal-estar físico, sendo um exemplo de tenacidade pela necessidade de expressar-se em forma e cor.


Renoir nunca deixou de pintar, apesar do sofrimento físico

Renoir nasceu em 1841, na cidade francesa de Limoges. Quando era criança, a modesta família Renoir mudou-se para um pequeno apartamento em Paris, próximo ao Museu do Louvre, que ele costumava frequentar. Em tenra idade já fazia desenhos utilizando giz da alfaiataria do pai. Quando adolescente trabalhou em uma fábrica de louça, onde aprendeu a pintar delicadas flores e aves, adquirindo experiência na representação da luz e das cores. Aos 20 anos ingressou na famosa École de Beaux-Arts de Paris, cidade onde viveu a maior parte de sua vida. Casou-se, em 1890, com uma de suas modelos favoritas, Aline Cherigot, com quem teve três filhos, um deles o famoso cineasta Jean Renoir. A residência do casal sempre esteve aberta aos amigos, que desfrutavam da hospitalidade do mestre e, principalmente, da famosa cozinha de Aline, descrita em algumas obras de culinária.

Aos 53 anos, o artista começou a apresentar grave quadro reumático, que causava grande sofrimento por sua rápida evolução. A enfermidade o atormentou até a morte, aos 78 anos, em 1919, na cidade de Cagnes-sur-Mer, no sudoeste da França. O desânimo e a desolação marcaram sua velhice – dois de seus filhos foram gravemente feridos na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e, em 1915, morreu sua adorada Aline.

Artrite reumatoide
Podemos afirmar com segurança que a enfermidade que acometeu Renoir, a partir da quinta década de vida, foi artrite reumatoide. As fotos do artista e a descrição dos sintomas e sinais feita por biógrafos demonstram que se tratava da forma mais agressiva da doença, aquela que costuma cursar com altos títulos de um anticorpo, o fator reumatoide, evoluindo com poliartrite erosiva e deformante, com manifestações extra-articulares. Quadro crônico, a doença já era estudada por alguns autores nos séculos 18 e 19. O termo foi utilizado pela primeira vez por sir Alfred Baring Garrot, em 1859, diferenciando essa entidade nosológica da gota. Garrot foi também responsável pela descrição do aumento da taxa de ácido úrico em pacientes portadores de gota. Seu filho, Achibald Garrot, deu sequência aos estudos do pai, separando, definitivamente, a artrite reumatoide de outras doenças reumáticas, como por exemplo, a osteoartrite.


Baile do Moinho de la Galette, uma das obras-primas do impressionismo, criada em 1876

Os médicos responsáveis pelo tratamento de Renoir eram os doutores Journiac, em Paris, e Jeanne Baudot, no interior. Infelizmente, a terapêutica da época resumia-se ao uso de analgésicos e salicilatos, aos quais ele tinha restrições por temer que pudessem afetar a criatividade. Preferia os banhos termais e de sol, caminhadas, massagens e aplicação de calor nas articulações.

Progresssivamente, a doença foi limitando suas atividades físicas. Algumas fotografias demonstram severas deformidades nas articulações das mãos, embora ainda pudesse segurar o velho cachimbo, que nunca deixou de fumar. A doença provocou lesões articulares generalizadas, com destruição da articulação do ombro direito e a ruptura de diversos tendões extensores, o que reduziu consideravelmente sua habilidade com as mãos. Aos 73 anos, tinha dificuldade para caminhar e precisava usar bengala. Posteriormente, passou a fazer uso de muletas. Em 1912, apresentou quadro de paralisia dos membros superiores e inferiores devido a problemas na coluna cervical, passando a locomover-se em cadeira de rodas. É provável que a causa dessa paralisia tenha sido uma rara, mas grave complicação da artrite reumatoide, a luxação entre a primeira e a segunda vértebra cervical, com comprometimento medular. Há relatos de que o artista apresentou episódio de pleurite, além de quadro pulmonar crônico e atrofia muscular severa – todas conhecidas manifestações associadas a essa doença autoimune.


Depois do banho, de 1888

Segundo o reumatologista português Melo Gomes, Renoir nunca precisou amarrar os pincéis às mãos para pintar, como relatado por alguns autores. Esse fato encontra-se esclarecido na biografia do pintor, escrita por seu filho Jean Renoir. O pintor utilizava as bandagens que se veem em suas mãos em algumas fotos, para se proteger dos diluentes e dos óleos que, invariavelmente, penetram e mancham as mãos de pintores. Diversos filmes da família mostram Renoir em frente a uma tela exercendo seu ofício. A doença reduziu muito sua destreza manual. Ele perdeu a motricidade fina dos dedos e tendia a mover o pincel com os braços.

Para Renoir, a arte foi uma necessidade quase física e, às vezes, um alívio para seus padecimentos, como se quisesse compensar com a pintura os outros prazeres que a doença o impedia de desfrutar. Praticamente inválido e paralítico, não parava de pintar. Até o final da vida levou tinta às telas. Um de seus últimos quadros, Descanso depois do banho, foi concluído poucos dias antes de sua morte. Nos últimos tempos de vida, Renoir manteve estreita amizade com Henri Matisse, 28 anos mais jovem, com quem saía frequentemente para passeios e longas conversas. Quando ficou confinado em sua residência, Matisse o visitava diariamente. Um dia, quando contemplava o mestre em seu ateliê, gemendo de dor a cada pincelada, Matisse perguntou:

– August, por que continua a pintar?
Renoir, com docilidade, respondeu:
– Porque, meu prezado amigo, a dor passa e a beleza permanece!

*José Marques Filho é reumatologista e conselheiro do Cremesp

Fontes e referências bibliográficas na pág. 47.

Impressionistas incompreendidos


Impressão Sol Nascente, de Claude Monet, quadro que rendeu ao grupo a jocosa alcunha de "impressionistas"

Ao frequentar a École de Beaux-arts de Paris, Pierre-Auguste Renoir teve a oportunidade de conviver com outros artistas que se tornaram seus grandes amigos, como Alfred Sisley, Fréderic Bazile e Claude Monet. A estreita amizade com Monet o levou ao seleto grupo de pintores franceses que definiria o movimento impressionista no século 19. Eram Camille Pissarro, Paul Cézane, Edgar Degas, Édouard Manet e sua cunhada Berthe Morisot, que se reuniam regularmente, juntamente com Renoir, Monet e Sisley para discutir sobre como as diferentes fases da luz podiam alterar a visão que se tinha de um objeto e de como seria possível reproduzir os reflexos de luz na superfície da pintura, da maneira como eram captados pelos olhares fugazes e de relance. Em 1874, esse grupo de artistas participou de exibição coletiva independente, causando escândalo pelas obras que quebravam as regras acadêmicas e conservadoras das artes da época, de padrões simétricos clássicos, formal e fiel à realidade. O termo impressionista foi cunhado, de forma jocosa, pelo jornalista e crítico de arte Louis Leroy ao ironizar a obra “Impressão: sol nascente”, de Monet, principal expoente do grupo. “Papel de parede em forma embrionária tem melhor acabamento”, escreveu Leroy sobre o quadro. Numa segunda exposição, o grupo voltou a ser massacrado pela crítica. Albert Wolf comentou que era “...difícil explicar ao senhor Pissaro que árvores não eram violetas e o céu não se parece com manteiga...”. Sobre Renoir ironizou que era impossível fazê-lo entender que “...o corpo de uma mulher não é uma massa em decomposição com manchas azuis e verdes...”. Renoir aperfeiçoou junto ao grupo as técnicas e os fundamentos do movimento impressionista. Suas obras demonstram liberdade, entusiasmo, poesia e sensibilidade em relação à natureza. Pintou homens, mulheres, crianças e famílias divertindo-se numa linda tarde de domingo, exibindo ao observador o estilo de vida da época.


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