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CAPA

EDITORIAL (SM pág.1)
A implantação plena do SUS no país depende, apenas, de vontade política


ENTREVISTA (SM pág. 4)
Um encontro com o autor de Caminhos para o desenvolvimento sustentável


CRÔNICA (SM pág. 8)
Se você duvida da resistência "sobrenatural" dos vírus e bactérias, leia ...


CONJUNTURA (SM pág. 10)
Robôs cirúrgicos: a esperança de sucesso em procedimentos de alta complexidade


SAÚDE NO MUNDO (SM pág. 13)
Os pontos positivos do sistema público de saúde canadense


MÉDICO EM FOCO (SM pág. 16)
O verdadeiro espírito da Medicina cativa moradores simples do litoral sul de São Paulo


AMBIENTE (SM pág. 20)
Guia Verde de Eletrônicos do Greenpeace: empresas e a reciclagem


DEBATE (SM pág. 22)
Como atua o sistema de cooperativas de trabalho médico no Estado


GIRAMUNDO (SM pág. 28)
Destaque para a exposição Cérebro - O mundo dentro da sua cabeça, realizada em outubro


HISTÓRIA (SM pág. 30)
Surge uma nova - e importante - área de atuação médica: a Medicina de Viagem


GOURMET (SM pág. 34)
Aprenda a preparar uma receita dos deuses: ostra à milanesa


CULTURA (SM pág. 37)
Cientistas voltam os olhos para o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí


TURISMO (SM pág. 42)
Acompanhe o passo-a-passo de uma viagem deslumbrante à Síria! Roteiro do médico Rodrigo Magrini


CARTAS (SM pág. 47)
Iniciativa da revista em papel reciclado recebe aprovação dos leitores


FOTOPOESIA (SM pág. 48)
Dante Milano, poeta modernista carioca


GALERIA DE FOTOS


Edição 49 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2009

ENTREVISTA (SM pág. 4)

Um encontro com o autor de Caminhos para o desenvolvimento sustentável

IGNACY SACHS

Economista e cientista social, Ignacy Sachs é um importante pensador do desenvolvimento sustentável no mundo. Nascido na Polônia em 1927, saiu de lá para o Brasil na adolescência. Formou-se em economia no Rio de Janeiro, na década de 50. Voltou à Polônia entre 1954 e 1957, tornando-se professor universitário em Varsóvia. Viveu na Índia entre 1957 e 1961, onde doutorou-se em economia. Atualmente dirige o Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, instituição em que passou a atuar como professor nos anos 60. Ele desdobrou o conceito de “civilização de biomassa”, fundamentada no aproveitamento dos recursos renováveis, iniciado pelo pensador indiano M. S. Swaminathan. Sachs tem estreitos contatos com o Brasil, onde participa de seminários e atua como professor convidado em universidades. Um de seus alunos foi o ex-ministro da Educação, Cristovam Buarque. “Os seminários de Sachs eram striptease de ideias (...) desnudava o pensamento na nossa frente, desafiando-nos a vesti-lo com novas roupas”, escreveu Buarque no prefácio do livro Caminhos para o desenvolvimento sustentável, de Sachs. Nesta entrevista, ele confirma essa vocação.


Ser Médico: O senhor nasceu na Polônia, viveu parte da vida no Brasil, estudou na França e desenvolveu uma tese na Índia. Em que medida a experiência em cada um desses países contribuiu para as suas ideias sobre o desenvolvimento sustentável?
Ignacy Sachs:
É óbvio que a minha reflexão sobre o desenvolvimento é fruto de uma trajetória única, de alguém que viveu em países tão diferentes como em épocas distintas. Tudo isso acumula experiência. Grande parte do que escrevi é resultado dessa trajetória. Agora, dizer o quanto devo a um ou a outro é impossível... Mas eu resumiria que foi extremamente rico o convívio com diferentes civilizações, culturas e constelações políticas. Talvez seja isso que me leve a enfatizar a importância do contato com a realidade, quando se quer trabalhar em Ciências Sociais. Não fui um pesquisador de biblioteca. A vida me forçou a viajar bastante, o que foi muito instrutivo. Se eu tiver de escolher entre um computador e um bom par de sapatos, escolho os sapatos.

SM: No livro Caminhos para a sustentabilidade, o senhor afirma que os países localizados na região tropical do planeta têm a possibilidade de transformar a desvantagem em vantagem natural, podendo chegar a ser uma moderna civilização de biomassa...

Sachs:
Essa tese foi reafirmada com muita força no Seminário do Instituto Ethos e do Jornal Valor Econômico, realizado em São Paulo, quando 22 grandes empresas brasileiras assinaram a “Carta Aberta sobre a Economia de Baixo Carbono” (documento em que se comprometem a reduzir a emissão de gases do efeito estufa, que foi entregue em agosto ao Ministério do Meio Ambiente). Estou com essa carta em mãos e ela diz o seguinte: “vivemos uma oportunidade única de construir um novo modelo de desenvolvimento, baseado em uma economia de baixo carbono, que deverá mobilizar empresas, governos e sociedades civis.

Mais do que qualquer outro país no mundo, o Brasil reúne condições de liderar a agenda desta nova economia”. Estou totalmente de acordo, subscrevo em grau e gênero.

SM: Ainda sobre sua tese, o que significa “pular etapas” para chegar a ser uma moderna civilização de biomassa? Que etapas o Brasil poderia pular?
Sachs:
Há duas visões de desenvolvimento. Uma afirma que países mais desenvolvidos são o exemplo, que o desenvolvimento deve ser imitativo e reproduzir todas as suas fases. A outra diz que acontece por “pulos de gato”, que em inglês se chama leap frog (pulo de sapo) – ou seja, que é possível avançar pulando certas etapas. O Brasil, se não pudesse ter feito isso, não estaria onde está hoje. Estaria sempre atrás. Para dar uma referência teórica sobre o tema, vale lembrar o que Lênin disse sobre o “desenvolvimento desigual”. O desenvolvimento não acontece em todas as partes da mesma maneira. Os últimos que chegam não reproduzem, necessariamente, o caminho dos outros, mas entram por aqueles que os outros não fizeram. Essa é a diretriz. O Brasil tem tudo para construir uma biocivilização moderna, que não existe em outros lugares dessa maneira, porque nunca foi feito.

SM: Há críticas de que o ritmo em que o Brasil tem crescido nos últimos anos não é compatível com a sustentabilidade.
Sachs:
Ritmo é uma coisa, sustentabilidade é outra. Teoricamente é possível ter um crescimento rápido e sustentável. E você também pode ter um crescimento pífio e insustentável. Ou seja, não é pelo critério de crescimento de 2% ou 6% que se torna mais ou menos sustentável, mas pelo caminho que se toma.

SM: A ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, também apontou essa incompatibilidade como um dos motivos de sua saída do partido do governo.
Sachs:
Para o debate pré-eleitoral no Brasil, esses temas que a Marina levanta são muito importantes. Na saída daquele seminário do Valor Econômico e do Ethos, a ex-ministra fez um comentário sobre a sustentabilidade ambiental ser o grande desafio deste século – não apenas uma discussão do verde pelo verde – e que é importante discutir a economia que se traduz na agricultura, transporte, geração de energia, saúde, educação, conhecimento e evolução tecnológica, porque leva a uma nova economia e oportunidades de emprego. Ou seja, não vamos fazer da sustentabilidade ecológica um tema à parte. Para mim, o desenvolvimento se baseia no seguinte tripé: os objetivos dele são sempre, e em últimas instâncias, sociais e éticos; há uma condicionalidade ecológica que não pode ser desrespeitada; e, ainda, temos de dar viabilidade econômica para que coisas aconteçam. Esse é o tripé. Mas o importante é colocar a problemática social e ambiental em pé de igualdade e não cair na ideia de que o desenvolvimento sustentável é um movimento que respeita a natureza mas joga milhões de pessoas na miséria. Temos de funcionar a partir de um duplo conceito ético de solidariedade com a geração presente e com as futuras. Uma das grandes questões sobre o futuro do Brasil é a sua capacidade de construir uma agricultura familiar sólida.

SM: O senhor defende a co-existência entre o sistema produtivo familiar e o de grande escala. Como se vislumbra essa possibilidade no Brasil? Qual seria o papel de atores sociais, como o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), e dos fatores circunstanciais, como a discussão política da reforma agrária estancada?
Sachs:
Vou dar uma leitura muito pessoal do assunto. O passado escravagista e o colonial ainda pesam muito sobre o Brasil, exatamente por terem criado uma estrutura fundiária extremamente desequilibrada. Esta é uma agenda inacabada, que deve ser enfrentada e passa pela consolidação da agricultura familiar – que não é um tema puramente brasileiro, mas mundial. O século 21 vai ser o de um novo ciclo de desenvolvimento rural, embora isso possa parecer absurdo. Primeiro porque todo mundo fala que temos 50% da população nas cidades, mas é preciso lembrar que os outros 50% também existem. Segundo, considerar cidadão urbanizado alguém que vive numa favela miserável é um absurdo. Na África, 3/4 da população vivem em favelas. Isso não é futuro para a humanidade. O livro “Planeta Favela”, do pesquisador norte-americano Mike Davis, mostra que precisamos repensar o desenvolvimento rural porque ainda temos muita gente vivendo lá; que há diferenças sociais enormes nesses lugares; e não temos condições de levar todo mundo para a cidade e, dentro dela, possibilitar vida digna para todos, com oportunidades de trabalho decente etc. O desenvolvimento rural ainda vai ocupar bastante a humanidade neste século.

SM: E qual é a sua avaliação sobre o MST?  
Sachs:
O Celso Furtado defendeu várias vezes o MST como um dos fenômenos importantes da história social brasileira. A existência desses movimentos é um elemento positivo, o que não significa que eu esteja, necessariamente, de acordo com todas as bandeiras que eles levantam. O importante é criar um diálogo social. Acredito que o futuro do desenvolvimento passa por um diálogo quadripartite entre o Estado, os empresários, os trabalhadores e a sociedade civil organizada. Agora, os movimentos sociais do campo são parte da sociedade civil organizada e quanto mais fóruns criarmos para um diálogo entre esses quatro grupos, maior será a nossa chance de ligá-los a projetos realistas.

SM: Poucos judeus poloneses voltaram para a Polônia depois da Segunda Guerra, o senhor foi um deles. O que o motivou a voltar?
Sachs:
A ideia de que o socialismo era uma bandeira empolgadora.

SM: Qual é a ideia que o senhor tem hoje do socialismo?
Sachs:
O fato de o socialismo real, aquele que existiu, ter quebrado a cara não implica enamorar-se do capitalismo. Estamos sentados sobre paradigmas falidos, um deles foi o socialismo, tal como construí­do na extinta União Soviética e nos países satélites. O neoliberalismo é outro paradigma falido, que não cumpriu as promessas e sofreu certo baque na última crise. Em vez de ficar no dualismo, na oposição um tanto etérea e abstrata entre o bom socialismo e o mal capitalismo, faríamos melhor se analisássemos as razões dos sucessos e fracassos do passado para propor estratégias concretas de desenvolvimento. Temos de sair do debate ideológico e partir para algo mais concreto.

SM: O que pode ser um caminho concreto? Prosperidade para todos, ricos e pobres?
Sachs:
Isso depende de como se define ricos e pobres. É obvio que as diferenças sociais cresceram enormemente nas últimas décadas e que precisamos de um mundo menos desigual. Portanto, devemos pensar em políticas que de alguma maneira, através do sistema fiscal, mobilize parte dos recursos dos ricos ao desenvolvimento que favoreça os pobres. E já que os Estados Unidos têm Barack Obama, vale lembrar a experiência do New Deal rooseveltiano e as políticas fiscais formatadas por sua equipe na época. Esse exercício nos faz ver que há ainda um enorme caminho para aumentar a carga tributária sobre os ricos, favorecendo o desenvolvimento dos que estão abaixo na pirâmide social.

SM: Qual é a grande lição que podemos tirar dessa crise econômica?
Sachs:
Antes de mais nada, é uma oportunidade para mudar de rumo.

SM: As revoluções ainda são possíveis? O homem ainda tem espírito revolucionário?
Sachs:
Nossa grande adivinha Madame Soleil (famosa astróloga francesa, que fazia previsões sobre política na Europa) morreu há poucos anos e não tenho bola de cristal (risos). A história é um processo em marcha que nos surpreende o tempo todo – às vezes de maneira trágica, como foram as duas guerras mundiais, e, outras, de forma mais auspiciosa. Não sei se ocorrerão revoluções ou evoluções, mas é óbvio que o modelo econômico mundial dos últimos anos está em dificuldades. Por outro lado, se introduzirmos critérios ambientais sérios, posso imaginar um mundo futuro no qual não vamos transportar, por avião e por milhares de quilômetros, frutas fora da estação! Vamos pensar uma economia mais profunda localmente. Isso não significa que não haja trocas internacionais, mas maior seletividade, levando em conta critérios ambientais, sociais e econômicos. O fato de estarmos sentados em cima de escombros de paradigmas falidos permite dizer que vamos provavelmente caminhar rapidamente para que surjam ideias novas. A história está aberta, não tenho como prever o que vai acontecer.


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