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Nesta edição, uma reflexão sobre o superaquecimento global e seu impacto na saúde


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Acompanhe esta conversa com o escritor-médico Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras.


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Tutty Vasques, cronista convidado, nos dá o "prazer" de um texto divertidíssimo...


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A exploração sexual infantil: os números são assustadores e as seqüelas, piores


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A reforma na assistência à saúde mental na mira de 3 especialistas no tema


HISTÓRIA DA MEDICINA
Anorexia: um mergulho na história da humanidade mostra que ela vem de longa data...


HOMENAGEM
Darcy Villela Itiberê: toda uma vida dedicada ao exercício, pleno e ético, da Medicina


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Homens públicos tão diferentes, na realidade tão semelhantes: são médicos!


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Se decidir pela Medicina já é difícil, imagine desistir da profissão, depois de graduado...


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Acompanhe uma visita virtual à 27ª Bienal de Artes, sob o tema Como Viver Junto


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Confira texto inteligente e bem humorado do cardiologista Rodrigo Penha de Almeida


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POESIA
Encerrando com chave de ouro esta edição, a poesia de Roland Barthes


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Edição 37 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2006

HISTÓRIA DA MEDICINA

Anorexia: um mergulho na história da humanidade mostra que ela vem de longa data...


Da anorexia santa à nervosa

Santas buscavam a purificação no jejum continuado e jovens deixavam de se alimentar para escapar de casamentos arranjados

Cybelle Weinberg*

O jejum auto-imposto não significa, necessariamente, um transtorno alimentar e tem uma longa história na vida da humanidade. Sabe-se que vários povos da Antigüidade incentivavam o jejum voluntário como uma prática religiosa e viam na abstinência alimentar uma forma de  purificação. Entre os gregos era uma prática curativa e tinha recomendação médica. Hipócrates, por exemplo, costumava receitar jejuns, vômitos e enemas para o tratamento de quase todas as doenças.

A abstinência alimentar entendida como sacrifício e expressão de autodisciplina, associada à sexual, privação de sono e autoflagelação, tomou sua forma mais rigorosa no século IV, no Egito, com os “pais do deserto”. Essa tradição ascética, iniciada por homens que abandonavam o mundo civilizado para se dedicar à meditação, prolongou-se por quase todo o período medieval, com as santas jejuadoras.  Rudolph Bell, historiador americano, interpreta a reclusão das jovens no convento como um importante recurso, na baixa Idade Média, para escapar aos desígnios da sociedade patriarcal que as obrigava a casar-se, ainda muito jovens, com homens que não conheciam.

O jejum auto-imposto teve seu apogeu na época de Santa Catarina de Siena (1347-1380). O hábito chegou a tal extremo que os registros feitos pelos confessores surpreendem por constituírem verdadeiras histórias clínicas. A tal ponto se estendeu essa prática que a própria Igreja Católica começou a se preocupar com a exagerada abstinência alimentar praticada nos mosteiros, restringindo a canonização de santas jejuadoras.

Santa Catarina de Siena iniciou a prática de jejuns na adolescência, comendo somente um pouco de pão e ervas cruas, muitas vezes deixando mesmo de fazê-lo e recorrendo aos vômitos quando forçada a comer. Sua dieta era tão preocupante que seu confessor foi obrigado a ordenar-lhe que comesse pelo menos uma vez ao dia. Ao mesmo tempo atirou-se a uma febril atividade, cuidando de pobres, enfermos e dedicando-se totalmente à ação político-religiosa que fez sua reputação: a reforma da Igreja. O exagero de suas privações fez suspeitar da “presença do diabo”, pois apesar de não tomar nenhum alimento ou bebida, Catarina continuava muito ativa. Estudiosos da doença concordam em definir o comportamento de Catarina de Siena, caracterizado pelo jejum prolongado, hiperatividade, despotismo e mortificação do corpo, como típico das anoréxicas atuais.

Santa Clara de Assis (1193-1253) entrou para o convento ainda adolescente e, sem nunca tê-lo deixado, dedicou-se incansavelmente à caridade e ao trabalho junto às irmãs. Apesar de doente por 28 anos, seguramente devido às privações – jejuns e penitências –, referia-se a si mesma como “sã e forte”, jejuando todos os dias.


Santa Clara de Assis

Esse comportamento nos remete às jovens anoréxicas, que incitam os outros a se cuidarem enquanto se impõem mortificações ao mesmo tempo em que não se vêem como doentes. Some-se a isto a teimosia, o rigor e a intransigência consigo mesma, a hiperatividade e o desejo de reclusão e teremos um quadro que se assemelha em muito à anorexia nervosa atual.

Dizendo-se orientada por Deus, Santa Maria Madalena de Pazzi (1566- 1607) passou a restringir sua dieta a pão e água aos 19 anos, exceto aos domingos, quando comia apenas alguns restos de alimentos deixados na refeição pelas outras irmãs do convento. Forçada a alimentar-se por suas superioras, passou a provocar o vômito. Freqüentemente era surpreendida em outros momentos comendo rapidamente, às escondidas, grandes quantidades de alimento. Para punir-se e prevenir-se das tentações diabólicas açoitava-se e banhava-se com água gelada em pleno inverno. Dentre as “tentações diabólicas” que a atormentavam, figurava um intenso desejo de comer. Sua vida foi um suceder de visões de crucificação, uso de coroas de espinhos, sofrimentos físicos auto-impostos e longos jejuns. Levando em conta sua resistência a comer, os episódios bulímicos e seu comportamento purgativo, é de se perguntar se um clínico de hoje não lhe daria o diagnóstico de anorexia nervosa subtipo purgativo.

Anorexia histérica

Santa Rosa de Lima (1586-1617), depois de ler sobre a vida de Santa Catarina de Siena a tomou por modelo, começando a jejuar três vezes por semana e aplicando-se severas penitências. Usava constantemente uma coroa de espinhos de metal, que escondia sob uma fileira de rosas, e uma cinta de ferro na cintura. Podia permanecer dias seguidos sem provar qualquer alimento, salvo um pouco de mel misturado a ervas amargas. Quando já não podia estar em pé, buscava repouso numa cama construída por ela, de vidro picado, pedras e espinhos. As evidências de que Santa Rosa de Lima se enquadraria no diagnóstico de anorexia nervosa estão no seu comportamento alimentar, caracterizado por jejuns freqüentes, pela sua hiperatividade e por um padrão de personalidade caracterizado pelo perfeccionismo, rigidez, perseverança em seus ideais de santidade, preocupação e dedicação em aliviar os sofrimentos dos outros, além de seu pouco interesse pelos relacionamentos sociais e rejeição ao sexo oposto.

Santa Veronica Giuliani (1660-1727), influenciada pelas leituras da vida de santos pela família, desde pouca idade submeteu seu corpo a toda sorte de tormentos. Mais tarde, já no claustro, passava a maior parte do tempo na cela do noviciado ou na enfermaria, onde recebia ordens para mudar sua dieta e quebrar sua rotina de jejum. No entanto, quando forçada a comer, ela vomitava. Há testemunhos de que ela jejuou por cinco anos (pão e água) e que apesar disso dormia pouco e era muito ativa. Nas sextas-feiras, Veronica mastigava durante todo o dia apenas cinco sementes de laranja, em memória das cinco chagas de Cristo.

A partir do século XVII, o jejum auto-imposto foi anexado às ciências médicas emergentes como um sintoma patológico: de virgens santificadas, as mulheres passaram a ser consideradas pacientes histéricas.

Richard Morton, em 1691, foi o primeiro médico a descrever quadros que se assemelham à anorexia nervosa contemporânea, caracterizados pela perda do apetite, amenorréia e emagrecimento importante, com perda de tecidos corporais. Com William Gull (1816–1890), a recusa em alimentar-se passou a ser vista como uma patologia, inicialmente chamada por ele de apepsia histérica e posteriormente  anorexia nervosa, quando se convenceu de que a “anorexia” (falta de apetite), era um termo melhor do que “apepsia” (indigestão).

Em 1873 Charles Lasègue, após observar oito casos de mulheres anoréxicas com idade entre 18 e 32 anos, concluiu que a doença mostrava uma “perversão mental”, o que motivou o nome de anorexia histérica para o quadro, caracterizado por uma grande resistência da paciente em alimentar-se, interrupção das menstruações, constipação, pele ressecada e vertigens.

Em fins do século XIX praticantes da psiquiatria dinâmica, como Sigmund Freud e Pierre Janet, começaram a fazer uso da história de vida do paciente e focar a atenção nas causas emocionais das doenças dos nervos. Embora Freud tenha classificado a doença como uma neurose e Janet a tenha associado a um quadro obsessivo-compulsivo, ambos, cada um à sua maneira, estabeleceram a importante questão conceitual que não havia sido formulada antes: o que a falta de apetite significa?

Apesar da apresentação do jejum auto-imposto ter mudado ao longo dos séculos, a síndrome parece florescer em sociedades nas quais indivíduos (em geral mulheres) têm falta de atenção adequada, controle e respeito, encontrando na recusa em alimentar-se uma via de expressão. As santas que jejuavam eram capazes de sobrepor-se à autoridade religiosa masculina por meio das suas práticas austeras; na atualidade, as pressões culturais e o apelo à magreza estendeu-se a vários aspectos da vida diária, levando à crença de que ser magra é ter poder. 

Da religião à ciência

Alguns autores concordam em que a recusa de comida por freiras medievais representava uma forma anterior da moderna anorexia nervosa, enquanto outros afirmam que a distorção da imagem corporal e a fobia de peso, tomadas como critério diagnóstico da anorexia nervosa, impedem que os comportamentos do passado e os do presente possam ser tomados como quadros semelhantes.

De acordo com Gerald Russell, ocorreram alterações significativas na forma da anorexia nervosa, especialmente com a emergência da bulimia nervosa, quadro descrito por ele em 1979. Essas mudanças ficam evidentes pela preocupação mórbida da anoréxica com seu peso e seu horror a engordar, além da distorção da imagem corporal, mencionada pela primeira vez por Hilde Bruch em 1962.

A revisão da literatura, no entanto, parece confirmar a hipótese de que a anorexia nervosa não é um fenômeno recente mas que tem existido através da história, ainda que a forma e a motivação do comportamento restritivo tenham variado ao longo do tempo. Ela não seria um “mal da modernidade” ou decorrente de um único fator – novo papel da mulher na sociedade, pressão da mídia, dinâmica familiar, fatores biológicos, personalidade, fantasias inconscientes, mas o resultado de uma combinação de fatores que ganham representatividade na cultura.

Tolerância 18
Madri pratica e Milão promete medidas contra modelos magras demais

As modelos que têm um look anoréxico foram proibidas de pisar nas passarelas espanholas durante a semana mais tradicional de moda de Madri, entre 18 e 22 de setembro. A medida inédita no mundo da moda barrou garotas que tinham menos de 18% de IMC (Índice de Massa Corporal) por considerá-las um mau exemplo para os jovens, cuja a perseguição pelo corpo ideal pode levar a distúrbios alimentares graves. Poucos dias depois, durante a Semana de Moda de Milão, os organizadores anunciaram a criação de um novo código de conduta, a vigorar a partir de fevereiro de 2007, para evitar que as modelos fiquem magras demais. No evento de moda seguinte, em Paris, o estilista Jean Paul Gaultier colocou uma modelo gorda na passarela.

O texto é um resumo do livro Do altar às passarelas: da anorexia santa à anorexia nervosa, de autoria de Cybelle Weinberg e Táki A. Cordás. Editora Annablume, São Paulo, 2006

* Cybelle Weinberg é psicanalista, mestre em Ciências pela FMUSP, colaboradora  do Projeto de Ensino, Assistência e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência do Ambulatório de Bulimia  e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP e coordenadora da Clínica de Estudos e Pesquisa em Psicanálise da Anorexia e Bulimia Nervosa (Ceppan).


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