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Entre os destaques desta edição, um debate sobre a política de redução de danos


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Entrevista especial com Adib Jatene, diretor do HCor e membro do conselho do MASP


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A crônica da vez é de autoria de Max Nunes, médico e um dos maiores nomes do humorismo brasileiro


MEIO AMBIENTE
De planeta água não temos mais nada. Ele está se transformando num enorme deserto...


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Um raio X da vocação médica mostra que a escolha vem desde muito cedo


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Em discussão a estratégia de saúde que distribui seringas a usuários de drogas injetáveis


HISTÓRIA DA MEDICINA
Visite conosco a Capela da Sta Casa de Misericórdia de Mauá: atração cultural e turística da cidade


SINTONIA
Ludwig Van Beethoven sob o prisma de José Marques Filho, conselheiro do Cremesp


CULTURA
No interior de São Paulo, conservatório abre as portas para verdadeiros talentos da música


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Médicos também são apaixonados por carros... antigos!


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As cozinhas estão sendo ocupadas pelos homens... É sinal de pratos muuuito saborosos!


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Venha conosco conhecer a natureza preservada, a fauna e a flora das ilhas Galápagos


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Cirque du Soleil: enfim chega ao Brasil o espetáculo Saltimbanco. E você acha que a Ser Médico ia perder?


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Você já leu "O Caçador de Pipas", do médico Khaled Hosseini? Não sabe o que está perdendo...


POESIA
José Martins Fontes, poeta, médico e jornalista finaliza com chave de ouro esta Edição


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Edição 36 - Julho/Agosto/Setembro de 2006

SINTONIA

Ludwig Van Beethoven sob o prisma de José Marques Filho, conselheiro do Cremesp

O gênio e a genialidade de Beethoven

Aborrecido com o destino e preocupado com a saúde,  o compositor tornou-se sarcástico e mal-humorado 

José Marques Filho*

Poucas doenças causam tamanho interesse e especulação quanto a surdez de Ludwig Van Beethoven. A influência desse e de outros males no estilo musical e mesmo na genialidade do compositor alemão é tema recorrente de teses, tanto no âmbito da Ciência como das Artes. A nona sinfonia, sua obra maior, foi concluída quando ele praticamente não ouvia mais nada. 

Algumas correntes apresentam a surdez de Beethoven como a manifestação de doença sistêmica e, outras, como afecção própria do aparelho auditivo. Beethoven ainda tinha pelo menos mais quatro problemas evidentes –  diarréia crônica, artralgias, dor abdominal e perda de peso. Alguns autores publicaram interessantes artigos defendendo determinadas entidades nosológicas como causadoras dos males que ele sofria. As teorias mais consistentes dignosticaram sarcoidose, hepatite crônica, doença inflamatória intestinal, doença de Whipple e lúpus eritematoso sistêmico. 

A vida e a atividade criativa do compositor foi dividida por alguns de seus biógrafos em três períodos. No primeiro, da infância até aproximadamente 1802, ele firma-se como excelente instrumentista e compositor promissor. No segundo, de 1802 a 1812, obtém reconhecimento por sua extraordinária produtividade musical, passando a manifestar os sintomas de surdez e os primeiros traços de sua personalidade característica. No terceiro, de 1813 a 1827, consolidou sua genialidade artística.  

Beethoven nasceu em Bonn, Alemanha, em 1770. Seu pai, maestro da corte do príncipe-eleitor de Bonn, introduziu-o ao ensino de piano e violino ao mesmo tempo quando ele tinha apenas quatro anos. Pobre e alcoólatra, Johann Van Beethoven almejava educar o filho talentoso para ser arrimo de família. Aos sete anos fez sua primeira apresentação em público e, aos treze, já contribuía com o orçamento da família como organista assistente da corte. Aos dezessete, seguiu para Viena, onde teve aulas com Wolfgang Amadeus Mozart. Nesse mesmo período, sua mãe Maria Magdalena morre de tuberculose, perda que o abala profundamente. 


Interior da casa museu de Beethoven, em Bonn, Alemanha

De volta para sua cidade natal, o compositor passa a ser conhecido por seus companheiros de orquestra em Bonn como “o espanhol louco”. Tinha a aparência de um leão enjaulado, cabelos em desordem, cenho carregado e a fala reduzida a uma rosnadura.   Aos 22 anos instalou-se definitivamente em Viena. Nessa época era aluno de Franz Josef Haydn, desentendendo-se posteriormente com o mestre. Aborrecido com o destino e preocupado com sua saúde, tornou-se sarcástico e mal-humorado. O temperamento de Beethoven era descrito como explosivo, arrogante e triste. Sua aparência era peculiar. Com baixa estatura, rechonchudo, largo de ombros, cabeça maciça, rosto marcado pela varíola, mãos peludas e dedos grossos, andava sempre curvado e era considerado hipocondríaco. A mesma sensibilidade que fertilizava sua genialidade também o levava à infelicidade. Durante toda a vida queixou-se de doenças reais e imaginárias. 

Os fatos relacionados às suas doenças são baseados nas cartas escritas a médicos e amigos, anotações em seu diário e dados da necropsia realizada um dia após sua morte. Por solicitação do próprio compositor, o estudo necroscópico foi realizado pelo doutor Johann Wagner, médico assistente do museu de patologia de Viena. Wagner teve como assistente o ainda estudante de Medicina Karl Von Rokitansky, que se tornaria um dos maiores patologistas da história. Em 1971, Naiken, médico do departamento de patologia do Centro Médico Albert Einstein da Philadelphia (EUA), publicou a teoria de que a surdez de Beethoven foi causada pela doença de Paget (osteíte deformante).

A doença de Paget é uma condição de causa desconhecida, com severidade variada, afetando cerca de 3% da população acima dos 40 anos. É um processo localizado em uma ou mais regiões sem maior significado clínico, mas pode ser mais extensa e severa produzindo anormalidades ósseas e deformidades. A surdez por compressão dos nervos auditivos é uma das manifestações bem documentadas da doença. Não raramente ocorre um aumento do volume craniano nos pacientes. 

As bases da teoria de Naiken são as características físicas de Beethoven e os achados de sua necropsia. Beethoven tinha pernas curtas em relação à altura, cabeça grande e assimétrica e uma fronte larga e protusa, assim como a mandíbula.  

De acordo com o patologista dos EUA, o compositor possuía excepcional audição até 1796, quando, aos 26 anos, começou a perdê-la,  a princípio para os tons altos. A perda foi insidiosa, mas lenta e inexoravelmente progressiva. Aos 52 anos ele estava quase completamente surdo. O ouvido esquerdo foi o primeiro a ser afetado. Zumbidos acompanharam a progressão da doença por longo tempo, desaparecendo quando da surdez total. Referências à dor de ouvido eram ocasionais, ocorrendo principalmente no inverno. Era freqüente a referência à cefaléia, apresentando também fácies doloroso nos últimos anos. Na tentativa de ouvir alguma coisa, ele utilizou vários tipos de cornetas por longo período.  

Sua necropsia faz várias referências aos ouvidos, face e crânio.

“... o ouvido externo era largo e irregularmente formado; a fossa escafóide, mais especialmente a concha, era muito espaçosa, aproximadamente 1,5 o tamanho habitual... 

“...o tubo de Eustáquio estava muito espessado, sua cobertura mucosa edemaciada e um pouco contraída perto da porção óssea do tubo.”   

“...todo o osso petroso mostrava similar grau de vascularização, sendo atravessado por vasos de considerável calibre, mais particularmente na região da cóclea.”  

“... o nervo auditivo esquerdo era muito afinado, surgindo três estrias acinzentadas muito finas.”   

“...o calvário se exibia com grande densidade e um espessamento de cerca de meia polegada.”

Muitos autores detalham a possibilidade de outras etiologias para a surdez de Beethoven. As mais consistentes apontam otosclerose cloclear, neurosífilis, febre tifóide e insuficiência vascular. Também foi escrito que o compositor teria perdido a audição por causa do hábito de molhar constantemente a cabeça com água fria, para aplacar o incêndio das idéias que ardiam no seu cérebro quando ele sentava ao piano para criar a sua formidável música.  

Comportamento e processo criativo 

Os efeitos de distúrbios de comportamento no processo criativo musical e literário são bem documentados na literatura médica e psicanalítica. Porto Carreiro, psicanalista, considerava o momento de inspiração do artista como uma crise de angústia. “Há qualquer cousa que demanda exprimir-se... embora o artista não saiba o que seja, é qualquer cousa inconsciente. E enquanto não exprimir, há como que aquele estado de necessidade em que ficam os morfinômanos privados do tóxico e ansioso por ele.” Exemplos para essa teoria não faltam. Piotr Il’yitch Tchaikovsky era atormentado por um mal indefinido, hoje conhecido como angústia.  

A angústia faz os homens de gênio sofrerem, embora os levem a realizar obras de beleza insuperável. Nos verdadeiros artistas, esse estado de expectativa sub-ansiosa, que caracteriza e anuncia o acesso de angústia não é inibidor. Em vez de sofrer todas as investidas do mal que se espalha pelo organismo provocando as sensações mais imprevisíveis e dolorosas, o artista sente uma necessidade imperiosa de criar alguma coisa. Em seu livro Doentes Célebres, o médico Gastão Pereira da Silva classifica Wagner como um louco: “Sua música é a expressão máxima de um cérebro em desvario. Tudo nele é alucinação, é tempestade. As suas frases mais suaves e a sua moderação musical, digamos assim, não passam de um simples preparo para um temporal que se arma em harmonias sublimes. As notas riscam como relâmpagos e o som  incendeia florestas como na lenda das Walkirias ...”  

De acordo com Gastão Pereira, nos grandes homens as doenças podem servir como dínamos criadores, enquanto que nos comuns não passam de decadência sem glória. 

A genialidade de Beethoven e o caráter inovador de suas composições são indiscutíveis. A audição piorou progressivamente após o término de sua primeira sinfonia. Para o compositor essa situação era insuportável. Além de ficar isolado da sociedade, ouvia cada vez menos os sons da própria música. Sobre essa aflição ele escreveu que “é mais difícil para o artista do que para o homem qualquer ... mais um pouco e teria dado cabo da vida!” 

Depressivo, o compositor produzia mais e melhor. Sua música era cada vez mais inovadora e profunda. Escreveu as oito primeiras sinfonias antes de 1815, nona só ficou pronta em 1824. Nove anos de pesar resultaram numa explosão final de alegria. Beethoven era um ser estranho. Precisava fechar-se ao mundo exterior para poder criar esse universo interior, puro como um santuário. O professor Santayana observou certa vez que “Deus criou o mundo a fim de que pudesse ser escrita a nona sinfonia!”

* José Marques Filho é reumatologista e conselheiro do Cremesp


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