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Tom Zé: "Persistindo os médicos, os sintomas deverão ser consultados"


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Debate discute pesquisas com seres humanos


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Urgência e Emergência: situação crítica no sistema público de saúde


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Memórias de cárceres: Luiz Guedes e Eleonora Menicucci


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Edição 29 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2004

EM FOCO

Memórias de cárceres: Luiz Guedes e Eleonora Menicucci

Memórias de cárceres

Médico que foi presidente da UNE e professora da Unifesp sobreviveram a torturas, exílio e clandestinidade para retomarem suas carreiras interrompidas durante a ditadura.

Em março de 1964, o Brasil sofria um golpe militar que marcaria a história e colocaria em xeque o que se conhecera até então como democracia no país. No Estado de Minas Gerais, um grupo de estudantes se mobilizava pelas causas da educação. Pelo menos dois deles, recém chegados à universidade, teriam suas trajetórias marcadas pela luta contra a ditadura militar.

Em conseqüência, teriam um forte sentimento de amizade que dura até hoje, apesar da distância geográfica. Trata-se do médico José Luiz Moreira Guedes e da socióloga e professora da Unifesp/EPM, Eleonora Menicucci

Em 1964, a União Estadual dos Estudantes (UEE) de Minas realizou um congresso para eleger sua diretoria. Em meio à pressão das forças militares, o estudante de Medicina José Luiz Moreira Guedes foi eleito presidente da entidade. Vindo de Juiz de Fora, chegou a Belo Horizonte para cursar Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Também foi eleita para a diretoria da UEE naquele ano, Eleonora Menicucci de Oliveira, estudante de Sociologia e militante do extinto Partido Comunista Brasileiro (PCB). José Luiz destaca o pioneirismo do movimento estudantil na capital mineira. “Quando [o presidente militar] Castelo Branco estava na Assembléia Legislativa de Belo Horizonte, milhares de estudantes saíram em protesto nas ruas. Havia a integração do movimento universitário com as questões gerais da sociedade brasileira, o conjunto das reformas de base. E, como estudantes de Medicina, toda a reforma no sistema de saúde era um aspecto importante dessa luta”, recorda.

Mandato de risco
Em 1966 seria realizado, nos porões da Igreja de São Franscisco de Assis, em Belo Horizonte, o 28º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) que entraria para a história por ter sido feito totalmente na clandestinidade.

Num momento em que a repressão endurecia, o encontro foi marcado por mobilizar a opinião pública em favor dos estudantes. Nele, o estudante de Medicina José Luiz Guedes foi eleito presidente da UNE. “A União Estadual dos Estudantes foi invadida e ocupada violentamente, por isso realizamos o congresso nos porões da igreja com centenas de estudantes”, destaca.

Eleonora também foi eleita para essa diretoria, ocupando o cargo de secretária-geral. “Fazer parte da UNE era um risco, mas foi um momento de muita solidariedade. A nossa diretoria foi muito importante. Ela avaliou de forma correta a importância da reforma universitária e da aliança entre os movimentos estudantil, operário e sindical, para fortalecer a luta contra a ditadura”. Como uma das poucas mulheres no movimento estudantil, Eleonora recorda-se de ter sofrido preconceito de gênero. “Eu sofria bastante discriminação dos companheiros, não da direção da UNE, mas dentro do próprio movimento”. Em 1967 ela estava “politicamente muito queimada” pela repressão e, por isso, foi deslocada do movimento estudantil para o operário pelo partido, ocasião em que entrou para a clandestinidade. “A visibilidade do movimento estudantil durou até a nossa diretoria. Depois disso, estávamos cada um na sua organização e clandestinos”, conta.

Prisões e tortura
José Luiz Guedes foi preso pela primeira vez pouco antes do 28º Congresso. Embora tenha sofrido tortura no Dops de Minas, foi solto logo depois. A segunda veio a acontecer no que era para ser o 30º Congresso da UNE, realizado em Ibiúna, em 1968. Ele lembra-se de ter sugerido realizar o congresso daquele ano dentro da Universidade de São Paulo (USP), por achar mais seguro, mas foi vencido pelos votos dos que escolheram Ibiúna. “Nesse processo, vivia basicamente na clandestinidade quando estava fora e na legalidade quando estava dentro de campi universitários. Por isso defendi que o congresso fosse realizado no campus da USP”.

A reunião em Ibiúna, que seria a responsável pela reorganização da UNE, resultou na prisão de cerca de 920 estudantes, inclusive José Luiz. No entanto, ele e outros companheiros conseguiriam fugir, forma arriscada, pouco tempo depois, quando os presos eram transportados em dois ônibus do presídio Tiradentes, em São Paulo, para o Dops de Minas Gerais. Próximo à cidade de Atibaia, perceberam que não haveria escolta para recebê-los na divisa dos dois Estados.

Aproveitando a baixa velocidade dos veículos, Guedes e os demais estudantes renderam os motoristas, empreendendo uma fuga em massa. “A palavra de ordem era fugir ou morrer, não estávamos brincando em serviço. Pulamos do ônibus pela porta de emergência e, depois, os outros estudantes também fugiram”.

Chegando a São Paulo, após viagem de trem, todos foram direto para a USP, onde uma manifestação pedia a libertação de todos os presos políticos de Ibiúna, que ainda eram mais de 800.

Nome falso
Eleonora Menicucci entrou para a clandestinidade em dezembro de 1968, mudando-se de Belo Horizonte para São Paulo com nome falso. No mesmo mês, o governo militar decretou o Ato Institucional nº 5, que aumentou a repressão e oficializou a censura no país. Em junho de 1971 foi presa e levada, junto com sua filha de apenas um ano e dez meses, pela Operação Bandeirantes (Oban), ao Departamento de Operações e Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). A filha foi torturada na sua frente. “Foi para me pressionar. Depois ela foi entregue à minha mãe. Essa história é muito forte, porque a torturaram na minha frente e não na do pai. É aquela concepção perversa, maquiavélica de que a mulher mãe é frágil”, recorda-se Menicucci. Dois processos a condenaram a 12 anos, pena que caiu para três anos e oito meses no Superior Tribunal Militar. “Eu saí de pena cumprida, mas fui muito torturada, fiquei com várias seqüelas”, revela.

Os anos 70 foram marcados pela prisão e assassinato de vários presos políticos e líderes estudantis. Com José Luiz Guedes não foi diferente. Usando o nome falso de José Diniz Moreira, seguiu com a família para o movimento camponês em Goiás e no sertão de Alagoas, atuando como operário ceramista. Nesse momento vê a Ação Popular (AP), partido do qual fora militante, se transformar, no Nordeste, no Partido Comunista do Brasil (PC do B), pelo qual atua até hoje. Em 1974, partiu com a mulher para o exílio na França. Com a anistia, em 1979, foi um dos primeiros a voltar para o país.

O reencontro com a Medicina
No período em que esteve na França, José Luiz Guedes matriculou-se na Universidade de Paris, retomando o curso de Medicina interrompido no terceiro ano. No entanto, veio a se formar somente em 1983, de volta à UFMG, após uma espera de 20 anos. Nessa época já era deputado federal por Minas Gerais. Clínico geral e sanitarista, trabalhou em Santos, quando a Aids teve sua maior incidência no Brasil. De volta a Juiz de Fora, foi coordenador do Programa Municipal de DST-Aids durante dez anos, trabalho que foi interrompido por conta de sua atuação política: é hoje o presidente do PC do B no município.
Eleonora voltou a estudar e se formou em Sociologia, em Belo Horizonte. Em 1977 foi para João Pessoa, indicada para trabalhar no Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese da Paraíba.

Trabalhou ainda com o movimento das mulheres rurais, antes de fazer mestrado e doutorado. Hoje é livre docente pela Faculdade de Saúde Pública da USP e professora titular do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp. “Minha militância depois da cadeia é totalmente voltada à luta pelos direitos das mulheres”, faz questão de lembrar. Tem, até novembro deste ano, mandato como relatora para o direito à saúde no Brasil, cargo ligado ao alto voluntariado da Organização das Nações Unidas. Nessa atividade, recebeu denúncias de violação dos direitos humanos na área da saúde, atuando em questões como a mortalidade materna, aborto e o caso de contaminação do solo pela empresa Shell na cidade de Paulínia.

“De nada me arrependo”
“Fiz a guerra contra a guerra, ao lutar contra a ditadura militar, não me arrependo de tê-la feito, mas a humanidade avançou para ser capaz de combater a guerra com a luta pela paz”, diz Guedes. “A vida que levei casa com a minha forma de ser, de nada me arrependo, a não ser das perdas que vivi”, destaca Guedes, ao lembrar da morte dos pais, de um filho aos seis meses e dos companheiros de luta. A alegria volta quando fala de Victor Luiz Barbosa Guedes, recém-adotado e que acabara de completar sete meses na ocasião desta reportagem. Encontrado com apenas duas horas de vida em uma sacola, na periferia de Juiz de Fora, “ele chegou para mudar a nossa vida, o que aos 62 anos me dá uma idéia de recomeço. A sua chegada vem preencher uma grande lacuna na minha vida e eu espero preencher a lacuna que existiu na vida dele quando foi abandonado na rua”, diz Guedes.

“Conheci o que é ser um sujeito político, a solidariedade, por mais que no âmbito interno da esquerda brasileira existisse discriminação com as mulheres. O legado que a minha geração deixou foi o de que vale a pena lutar para transformar a sociedade e os valores”, finaliza Eleonora.


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