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Uma visão sem ação é somente um sonho. Uma ação sem visão é apenas um passatempo. Uma visão com ação pode transformar o mundo. Joel Baker


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Chico de Oliveira, sociólogo, professor da USP e um dos fundadores do PT


CRÔNICA
Texto bem-humorado do médico e ex-jogador de futebol Sócrates


POLÍTICA DE SAÚDE
O acesso universal a medicamentos é uma meta que tem de ser o norte das ações...


CONJUNTURA
Projeto Xingú: iniciativa pioneira de atendimento médico feito em aldeias indígenas do país


COM A PALAVRA
A Medicina-espetáculo. Por Joaquim Prado Pinto de Moraes Filho


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Cesárea a pedido


MÉDICO EM FOCO
Euryclides Zerbini


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Polenta Especial: receita do anestesiologista José Carlos Canga


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O uso do branco por médicos


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LIVRO DE CABECEIRA
O Código da Vinci e Tao Te King: Um Pequeno Grande Livro


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Edição 28 - Julho/Agosto/Setembro de 2004

COM A PALAVRA

A Medicina-espetáculo. Por Joaquim Prado Pinto de Moraes Filho

A MEDICINA COMO ESPETÁCULO

Joaquim Prado Pinto de Moraes Filho*

Os assuntos relativos à saúde sempre despertaram interesse do público. As pessoas se perguntam, com certo grau de ansiedade, como funcionam os órgãos do corpo humano, o porquê da ocorrência de certas enfermidades e como evitá-las.


Nesse sentido, os agentes difusores da informação têm provido, mais do que simples informação, razoável contribuição para a cultura popular. Esse panorama, particularmente no que se refere à televisão, entretanto, parece estar mudando para pior.

É verdade que além do incontestável avanço tecnológico dos últimos anos, também a natureza educativa da televisão progrediu muito em numerosos aspectos. Em relação à Medicina, no entanto, infelizmente não se pode dizer a mesma coisa: de tema marginal sem maior importância levado no início da tarde, esta passou a ser incluída no horário nobre. Ganhou status de geradora de audiência, com direito a patrocinador e auditorias do Ibope. A Medicina tornou-se um espetáculo!

Não nos referimos às óbvias contribuições isoladas, sérias, de caráter educativo e bem intencionadas como os programas gerados pela TV Cultura ou, por exemplo, os comandados pelo dr. Dráuzio Varella. Ao invés dessas, consideremos o show de contra-cultura que antes era promovido nas noites de domingo e agora encontra-se disseminado para todas as noites. O que é oferecido ao telespectador? Trágicas e pobres criaturas com deformidades físicas e mentais que, já não bastasse a grande carga de infelicidade e tristeza que são obrigadas a carregar, são apresentadas como animais exóticos, participantes de um circo escabroso.

O apresentador, com fingida piedade e falsa expressão compungida, está na verdade de olho nos índices de audiência. Os assuntos ali são abordados no mesmíssimo tom com que, dois minutos antes, foi entrevistado um criador de avestruzes, um contrabandista ou uma conhecida atriz de novelas.

Em outro canal é apresentado um caso de “erro médico”. Pouco importa qual foi o fator determinante: imperícia médica, evento adverso, hiper-sensibilidade do paciente ou, talvez, a fatalidade. Não existe efetivamente nenhum interesse sério em nenhuma dessas questões. O tema é abordado com exemplar vulgaridade além de superficialidade e malícia impecáveis. 

O apresentador desempenha o papel do bom moço, sensível, preocupado com o que está sendo apresentado, enquanto estica ou encolhe o tempo dedicado a essa tarefa, a depender do que sinaliza a audiência.

Nesse caso, dois infelizes são postos no mesmo saco: paciente e médico, embora ambos ocupem, por imposição do sensacionalismo, posições opostas: vítima de um lado e vilão do outro. Estão presentes de uma só vez, a ridicularização do paciente, a humilhação do médico, a falta de respeito humano para com ambos e para com o drama que ali se apresenta e a desconsideração para com o público que é tratado como se fosse constituído apenas por um punhado de ignorantes.

Existem numerosos outros exemplos de Medicina-espetáculo. Basta lembrar as apresentações, sempre acompanhadas de comentários tolos, sobre intervenções cirúrgicas curativas ou estéticas, “novos” tratamentos e métodos diagnósticos.

As pessoas estão sendo prejudicadas. Especialmente aquelas que acreditam piamente no que ouvem ou assistem. Assistem ao espetáculo e se consideram bem informadas; por essa razão, seus juízos e valores partirão de princípios errados sobre a saúde, a doença e os médicos.

Os médicos estão sendo prejudicados. Em primeiro lugar porque a ação absolutamente transcendente do ato médico passou a ser tema de debates em rodinhas de chope, juntamente com o futebol ou com o desenrolar da novela das oito. A respeitabilidade da profissão, a sensibilidade e a experiência profissional do médico que permitem entender que cada caso é um caso,  no espetáculo da Medicina transformaram-se em expressão de dúvida e incerteza.  Na nossa profissão com seu juramento de honra, o primeiro mote é aliviar o sofrimento dos doentes e prolongar a vida. Mais do que nenhuma outra é voltada para o ser humano, mas, passa agora a ser creditada como simples ofício, apenas uma tarefa, destituida de qualquer transcendência.

Os pacientes estão sendo prejudicados. Obrigam-se a uma penosa exposição, submetem-se a situações embaraçosas, criam-se falsas expectativas que nada mais significam do que prolongar o sofrimento. Além de tudo, é extraída da relação médico-paciente dois de seus mais fortes elementos: a confiança e o respeito.

Afinal, para que serve a Medicina-espetáculo? Promove a educação do povo? Induz a melhores hábitos de saúde? Melhora o conhecimento do corpo humano e suas debilidades ? Prestigia a Medicina brasileira? Oferece aos aflitos e aos doentes uma luz, um caminho, talvez uma nova chance? A resposta, já sabida é não! Nos moldes em que vem sendo feita e apresentada, a Medicina-espetáculo é, salvo honrosas exceções, um frívolo insulto aos médicos e à inteligência do nosso povo.

Certamente essa distorção poderá ser redirecionada para melhores caminhos. Não deve haver espaço para o circo de horrores, evitando a exposição de enfermos. Por outro lado, enquanto forem alternativos, hipotéticos e discutíveis, os temas de saúde devem ser evitados porque podem ser mal interpretados e tomados como verdades assentadas em evidências científicas, o que não é o caso. A enorme responsabilidade de expor novos procedimentos e tratamentos deve ser precedida por uma análise séria, estudo em profundidade e, sobretudo, contar com assessoria médica de primeira linha, o que numerosas vezes, efetivamente não acontece.

Não é o fim da Medicina-espetáculo que é ora sugerida: o que se propõe é a revisão do tema e uma tomada de consciência da relevância que o espetáculo pode encerrar em si mesmo. Já imaginaram que bom seria se em um futuro não muito distante, a Medicina-Espetáculo viesse se aliar com as outras faces da Medicina melhor conhecidas: a Medicina-Arte, a Medicina-Ciência e a Medicina-Sacerdócio?

*Joaquim Prado Pinto de Moraes Filho é professor associado de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo


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