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Edição 25 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2003

POLÍTICA DE SAÚDE

Crise de Identidade na Saúde

Saúde em Crise de Identidade

"Pouco a pouco e de repente o mundo se faz grande e pequeno, homogêneo e plural, composto e multiforme. Simultaneamente à globalização, os pontos de referência se dispersam dando a impressão de que se movem, flutuam, se perdem". (Ianni, 1999)

Edmundo Gandra*



Em muitos setores ouve-se declarações de que um novo mundo está se configurando, acontecimento que se denomina globalização. É importante diferenciar, conforme propõe Ulrich Beck (1998), os termos globalidade, globalismo e globalização.

Globalidade significa que "vivemos em uma sociedade mundial, onde 'mundial' significa 'diferença e pluralidade', enquanto 'sociedade', significa estado de 'não-integração', razão pela qual se pode entender a globalidade como 'pluralidade sem unidade'".

Beck entende por globalismo "a concepção pela qual o mercado mundial desaloja ou substitui a atividade política". Por último, globalização constitui "os processos em razão dos quais as nações soberanas se interrelacionam e se interconectam por meio de agentes transnacionais".

Como esta sociedade politicamente multidimensional, policêntrica e contigente emergiu? Não existe consenso. Castells sustenta que "teve origem na coincidência histórica de três processos independentes: a revolução da tecnologia da informática; a crise econômica tanto do capitalismo como do modelo estatal e sua conseqüente reestruturação; e o aparecimento de movimentos sócioculturais como o liberalismo, o feminismo, o ambientalismo e o de direitos humanos. A interação entre esses processos deu luz à sociedade de rede, à economia informacional/global e à cultura da realidade virtual" (Castells, 1998). Este novo mundo tem impactos profundos sobre a teoria e a prática da saúde coletiva.

A conjuntura atual requer da saúde coletiva um pensamento suficientemente amplo para interpretar e explicar a situação dos seus serviços; apoiar a melhoria das condições de vida, cada vez mais deterioradas, da maioria das populações; promover e fortalecer expressões individuais e coletivas que dêem impulso à saúde e à construção de um estado democrático coerente com essas necessidades e direitos. Ao mesmo tempo, deve ser capaz de criar redes de cooperação internacional nesse campo.

Parece que as bases filosóficas e teóricas que sustentaram o percurso da saúde pública durante o século XX não têm forças para suportar o embate atual do globalismo. Em efeito, a saúde pública que guiou nosso pensamento e ação na América Latina durante o século XX se sustentou em um tripé constituído:

o Pela causa filosófica-teórica da doença e pela morte como ponto de partida para a compreensão da saúde;
o Pelo método positivista como base para explicar a "verdade" sobre o risco e pelo funcionamento estrutural como eixo de compreensão da sociedade;
o Pela aceitação do poder do Estado como força privilegiada para calcular o risco e garantir a prevenção.

O sanitarista, então, tornou-se um agente do Estado e da ciência. Um interventor técnico-normativo que conseguia efetivar o poder do Estado nas instituições de atenção médica e na população, além de executar a "verdade" da ideologia científico-tecnológica positivista com a finalidade de prevenir os riscos de doenças da população ? transformada, por meio de seus atos, em objeto.

Em tempos de globalização, esse tripé deve ser repensado. Parece que chegamos a algumas conclusões: a) não é possível alcançar a saúde unicamente pelo desconto da doença; b) a aproximação positivista que exclui o sujeito, enquanto promotor de seu próprio conhecimento e ação, também tem sido criticada; c) O Estado, suposto "mago e exorcista do risco e da doença", debilitou-se fortemente em sua autonomia e soberania, transformando-se em um intermediário de interesses distintos, em geral contraditórios; d) surgiram novos poderes, representados por identidades projetivas que defendem aspectos intimamente ligados ao seu mundo, projetando suas ações políticas a outros agentes e setores da sociedade.
Nosso potencial para apontar o fortalecimento da saúde das coletividades, das instituições debilitadas e o próprio desenvolvimento de nossa profissão radica na necessidade de nos transformar em intérpretes-mediadores dessas novas forças que surgem. Isso nos obriga a mudar a forma de ver, interpretar e atuar:

A visão: a saúde pública convencional, que viu a população como objeto a passar por intervenção, agora precisa observar como os seres individuais e coletivos produzem sua saúde no cotidiano.
A interpretação: É fundamental compreender as linguagens da vida natural. Nesse campo, tanto a ecologia como a biologia avançaram na compreensão da vida como rede inter-dependente, sistema complexo etc, avanços estes que, em alguma medida, vão integrando-se à Medicina Social (Almeida, 1999).Também é fundamental mudar a forma de interpretar a vida social. Nesse aspecto, as ciências sociais avançaram e discutem a necessidade de se levar a cabo uma dupla hermenêutica. Uma primeira com a população que forja seu mundo de "verdades", por meio das quais cria representações (metáforas) próprias para explicar sua saúde e doença. Uma segunda, com vistas a enriquecer, com o subsídio da Ciência e da técnica, as formas de vida cotidiana dos grupos sociais.
A ação: procedendo dessa forma conseguiríamos uma maior interconexão da saúde com a vida social. Porém, há necessidade de desenvolver novos instrumentos filosóficos, teóricos, metodológicos e técnicos para levar essa tarefa.

Dessa forma, o tripé tradicional deve transformar-se para dar um passo a algo diferente fundamentado em: a) causa filosófico-teórica da saúde e da vida, sem descuidar a prevenção da doença; b) métodos que integrem e sustentem as teorias sociais e científicas que interpretam e explicam a ação e a estrutura social; c) uma ação que integre diversos poderes e agentes ? indivíduo, movimentos sociais e poder público local ? que promovem a saúde, controlam socialmente o cumprimento dos deveres do Estado, lutam por sua democratização e entram em acordo/desacordo com os poderes supra e infranacionais.

Esse novo tripé resgata os aspectos positivos alcançados pela saúde pública, criticam os negativos. O novo mundo global está produzindo imensas mudanças na vida social, cultural, política e econômica, mas também está abrindo diversos espaços de solidariedade. Recordemos as últimas manifestações massivas de oposição à guerra contra o Iraque. A globalidade dessas manifestações se caracterizam pela variedade de representantes que coligem em um proposta solidária e, ao mesmo tempo, caminhos desconhecidos de união e organização começam a ser percebidos e inventados, os mesmos que nos obrigam a despertar a criatividade, sempre presente na espécie humana. A Medicina Social deve apoiar a criação de poderes e as ações que possibilitem uma glocalização (Roberttson, 1992) mais humana, ou seja, globalizarmos a partir de nossas identidades.

*Edmundo Gândra é membro da Oganização Panamericana de Saúde/Organização Mundial da Saúde no Equador e professor da Universidad Nacional de Loja, Equador.
* Resumo da Conferência "Juan César García VIII Congresso Latinoamericano de Medicina Social".


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