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    17-01-2026

    Ensino médico

    Por que algumas faculdades de Medicina não querem que o resultado do Enamed seja divulgado? Qual é o interesse?

    A tentativa de barrar a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), por parte de algumas faculdades privadas, levanta um debate fundamental sobre transparência, qualidade do ensino médico e os rumos da formação profissional no Brasil.

    Segundo reportagem recente, instituições recorreram à Justiça para impedir a publicação das notas, alegando falta de clareza nos critérios e possíveis prejuízos à imagem e ao valor de mercado. O argumento central, no entanto, revela uma preocupação mais profunda: o receio de expor fragilidades na formação oferecida.

    O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) entende que avaliações como o Enamed cumprem um papel essencial para a sociedade, para os estudantes e para a própria profissão médica.

    Quando faculdades tentam impedir a divulgação de resultados, a pergunta que se impõe é: o problema está no exame ou na formação oferecida?

    Transparência é um dever público

    A formação médica impacta diretamente a qualidade da assistência à saúde. Médicos lidam com vidas humanas, e a sociedade tem o direito de saber como estão sendo formados os futuros profissionais. A divulgação dos resultados do Enamed é uma ferramenta legítima de prestação de contas e de indução à melhoria do ensino.

    Esconder dados sob o argumento de proteção institucional não fortalece a educação médica — ao contrário, enfraquece a confiança pública e dificulta a correção de falhas estruturais e pedagógicas.

    Abertura indiscriminada de cursos preocupa

    O Brasil vive, há anos, um processo acelerado de expansão de faculdades de Medicina, especialmente no setor privado. Muitas dessas instituições foram autorizadas sem a devida garantia de infraestrutura adequada, corpo docente qualificado, campos de prática suficientes e integração efetiva com a rede pública de saúde.

    Essa expansão desordenada preocupa entidades médicas e especialistas em educação, pois quantidade não pode substituir qualidade. Avaliações nacionais como o Enamed tornam-se ainda mais importantes nesse contexto, justamente para identificar se os cursos estão formando médicos com competência técnica, ética e preparo clínico adequados.

    O objetivo do Enamed é mostrar resultados insatisfatórios que devem servir como alerta para a revisão de currículos, melhoria da infraestrutura, qualificação docente e fortalecimento da formação prática.

    A tentativa de barrar a divulgação das notas revela uma inversão de valores, configurando um risco à sociedade.

    “Precisamos de médicos bem formados, preparados para atuar no SUS, nas emergências, nos ambulatórios e nos hospitais. Para isso, é fundamental que existam mecanismos transparentes de avaliação, capazes de orientar políticas públicas e informar futuros estudantes, famílias e aqueles que subsidiam a formação desses alunos”, afirmou Angelo Vattimo, presidente do Cremesp.

    O Brasil possui quase o mesmo número de faculdades de Medicina que a Índia — cerca de 500 instituições — apesar de ter uma população aproximadamente seis vezes menor. Esse cenário evidencia uma expansão acelerada e pouco planejada do ensino médico no país, muitas vezes sem a infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou campos de prática suficientes. Como consequência, a formação oferecida em parte dessas faculdades fica aquém do padrão necessário para garantir a segurança dos pacientes, aumentando os riscos à saúde pública. Além disso, esse modelo representa um uso ineficiente do dinheiro público, seja por meio de financiamentos, bolsas ou da sobrecarga futura no sistema de saúde causada por profissionais mal preparados.

    Cremesp. Juntos pelos médicos e pela sociedade.


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    CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO ESTADO DE SÃO PAULO
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