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    14-01-2016

    Viagem incrível

    Reportagem exclusiva da SM sobre a Turquia/Curdistão, destinos deslumbrantes

    Belezas insólitas

    Rodrigo Magrini*

    O palácio de Ishak Pasha, em Dogubayazit; o Lago de Van e a cidade de Mardin, na Turquia/Curdistão, são destinos singulares, cujas belezas mágicas são reservadas apenas aos turistas que gostam de se aventurar por lugares longínquos



     

               Primeira foto: Cúpula de Mardin; segunda foto: lago com carpas sagradas em Sanliurfa;
                        terceira foto: porta da igreja cristã esculpida em pedra na cidade de Mardin

     

    A paisagem era perfeita. Uma cadeia de montanhas cobertas de neve se eleva a quase 4 mil metros de altura, refletindo seus picos – na magnitude de sua beleza no início da primavera – nos lagos azuis esverdeados. São dezenas deles, formados pelo degelo da neve do último inverno, margeados por cerejeiras e damasqueiros repletos de flores, indicando a chegada da nova estação.

    São quilômetros de montanhas cortadas por uma das estradas mais altas do planeta, cujo silêncio é interrompido, de vez em quando, por uma cachoeira e pelo vento. Pelas janelas observava as pessoas a caminho do trabalho no campo, suas roupas coloridas e os véus sobre os cabelos contrastando com o branco da neve que ainda persistia sobre aquele platô. Tudo parece paradisíaco e calmo, até me pararem para a primeira das cinco revistas policiais das quais fui vítima. Estava na Turquia, a 35 quilômetros da fronteira com o Irã, e perto da tensa fronteira com a Armênia. Naquelas montanhas, o PKK (partido separatista curdo) se esconde. Ou seja, oficialmente estava na Turquia, mas essas terras pertencem ao povo curdo. Não oficialmente, então, encontrava-me no Curdoquistão.

    E assim fui rumo a Dogubayazit, pequena cidade de 36 mil habitantes no nordeste da região de Anatólia, onde se transpira testosterona. As mulheres são raridade, e o que mais se vê pelas ruas são homens fardados, armados até os dentes, sempre alertas para possíveis insurgências. Para quem nunca ouviu falar desse lugar, digo apenas que, ao chegar à “porta” da cidade, de um lado avistei nada menos que o Monte Ararat, com seus 5.137 metros de altura, e, de outro, o indescritível Ishak Pasha, palácio cuja construção, iniciada em 1685, demorou 100 anos. Os estilos arquitetônicos otomano, armênio, persa, georgiano e seljúcida se fundem para formar um palácio das “mil e uma noites”, de cujas janelas se avistam as duas montanhas que formam o Monte Ararat.

    O primeiro dia era para me aclimatar. Abri a janela do hotel e me deparei com uma daquelas cenas de faroeste: ruas de terra e um monte de mal-encarados a circular de um lado para o outro. O café da manhã era um copo de água quente, um sachê de café solúvel e dezenas de tipos de queijos.

    Iniciei a caminhada pelas ruas e, em 15 minutos, já tinha explorado a cidade toda, pela sua total falta de atrativos. Sendo assim, não me restou senão caminhar rumo ao palácio. O que parecia ser 3 km tornou-se algo eterno, até contar com a ajuda de um motociclista que carregava uma ovelha naqueles carrinhos acoplados ao lado da moto. E lá fui eu, a ovelha e o bom samaritano. Melhor dizendo, curdo ou turco.

    O Ishak Pasha é simplesmente impressionante por sua arquitetura e o trabalho em pedra, típico da cultura seljúcida, somados à localização, no meio do nada, tendo à sua frente o Monte Ararat e sua mítica história. Sentei, contemplei e fiquei orgulhoso de mim mesmo por ter tido coragem de encarar esse desafio. “The ark came to rest on the mountains of Ararat” (Genesis 8:4).




    Primeira foto: detalhe do relevo representando Davi e Golias
    na igreja armênia da Ilha de Akdmar; segunda foto:
    antiga catedral armênia da Ilha de Akdmar;
    terceira foto: Ishak Pasha em Dogubayazit, construção grandiosa
    com minarete e coberta por telhas brancas


    De volta à otogari (rodoviária) tratei de pegar o primeiro ônibus para o lago Van. Como em um rali, fui, sacolejando, em direção a esse que é um dos maiores lagos endorreicos (que não tem deságue significativo e evapora toda a água que coleta de sua bacia hidrográfica) do mundo e o maior da Turquia. A região foi centro do Império Armênio por volta do ano 1000, que deixou, até hoje, castelos, monastérios e a igreja armênia da Ilha de Akdamar. Embora dure cerca de 15 minutos, foi a viagem mais longa, com a estadia mais curta, que já fiz, e uma das mais incríveis belezas que vivenciei até hoje.






    O bazar de Urfa - a cidade onde nasceu Abraão - vende
    produtos da região


    Cheguei à ilha de barquinho e lá fiquei explorando sozinho o que durante aproximadamente 700 anos foi o centro de uma subdivisão da Igreja Cristã Armênia. No centro dela encontra-se a Catedral da Sagrada Cruz, cujo exterior destaca-se pelos relevos em pedra de cenas bíblicas. Assim como no Ishak Pasha, a localização geográfica dá a sensação de estar num set de filmagem. O ambiente constante de isolamento e abandono contrasta com a beleza impressionante. Por ser uma atração religiosa cristã em um país muçulmano, a presença de turistas locais é quase nula e a distância acaba sendo um fator para a ausência de ocidentais na região. Princesas, reis, impérios e lendas passaram pela cátedra, cuja construção é de uma beleza singular no exterior, e tem um interior austero e estéril em relação às outras que conheci, mas onde deixei minha imaginação solta, enquanto o pobre homem sentado em seu barco me esperava.

    Voltei ao pequeno porto no meio do nada. O transporte para sair dali é mais complicado do que na chegada, pois não passavam vans nem ônibus. Sentei à beira da estrada, à espera de qualquer meio de transporte rumo a outro destino. E ali fiquei muito tempo, até um carro me oferecer carona para Diyarbakir, a capital oficial do Curdoquistão, de onde, sem parar, cheguei ao entardecer em Sanliurfa. Foi nesse lugar que aquela sensação de felicidade começou a invadir minha alma. Não que Ishak Pasha e a Ilha de Akdamar não tenham valido a pena, mas Urfa – como é chamada pelos íntimos – tem vida, e muita vida!


    Rodrigo Magrini e seus amigos curdos


    Por ser considerada a cidade onde nasceu Abraão, ela recebe diariamente milhares de peregrinos de toda a Turquia e de países mulçumanos como Irã, Iraque, Azerbaijão, entre outros. Isso faz dela um deleite para os ocidentais. O pátio central da mesquita, onde fica a gruta na qual teria nascido Abraão, é todo em mármore, refletindo a procissão de mulheres vestindo roupas tradicionais, ora pretas, ora – para minha surpresa –, dependendo do país, coloridas e florais, gerando imagens únicas que nos remetem, instantaneamente, à reflexão do ser religioso e suas manifestações similares, independente da religião. Ao lado da mesquita, há uma piscina, na qual milhares de carpas sagradas são alimentadas pelos fiéis. Quem tocá-las, diz a lenda, torna-se, imediatamente, cego. Afinal, esses peixes são, na verdade, oriundos daqueles que surgiram do carvão que, por ação de Deus, teriam salvado Abraão da morte ordenada pelo rei Nim­rod. Assim é Urfa, repleta de histórias, deuses e profetas. Lá, moraram Jó, Moisés e tantos outros, abençoados por outras religiões, e envoltos em séculos de lendas, verdades e interesses.

    Mas nem tudo na cidade é religião. No bazar de Urfa, labirintos centenários transportam o turista para um modo totalmente diferente da vocação religiosa da cidade. Longe do apelo turístico, ele é voltado para o dia a dia da população local, vendendo produtos da região, roupas, utensílios domésticos e pombas, muitas pombas! De todas as cores, raças e tamanhos, elas são disputadas em leilões animados, regados a chá, afinal é uma cidade muçulmana.

    Hora de partir. Mardin me esperava para terminar a viagem em grande estilo. Relativamente pequena, a cidade de 82 mil habitantes está situada em uma colina perto do Rio Tigre, de onde se pode ver a grande imensidão das planícies da Mesopotâmia, em dias claros. Toda construída em pedras esculpidas, ela faz parte daqueles achados turísticos que poucos ouviram falar e, dentre esses, um número menor ainda a visitaram.

    Mágica, linda e recheada de história, a cidade já deixaria qualquer turista boquiaberto, mas estando no final ou no início – dependendo da referência – da Mesopotâmia, ela é uma das novas mecas do turista turco. Lá, a única coisa a fazer é descansar e comer durante três dias, suficientes para partir com a sensação de Indiana Jones sou eu! E assim deixei Mardin em direção a Istambul (sim, tem um aeroporto na cidade) e de Istambul a Londres, de Londres a Dallas, de Dallas a São Paulo. Parece muito? Não! Nem todo esse trajeto foi suficiente para ler o material da próxima viagem, Romênia. Haja presbiopia...

     

    *Rodrigo Magrini é dermatologista em Bragança Paulista

     

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    Tags: turismoser médicoviajanteTurquiaCurdistão.

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