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“Difícil acreditar que uma política de fixação de médicos estrangeiros em regiões remotas seja mais vantajosa que estimular os próprios profissionais do País”
Em recente encontro entre os novos prefeitos de todo o País e a presidente Dilma Rousseff antes do Carnaval, o alvo das mais frequentes lamentações foi a falta de médicos, especialmente nas menores cidades, com parcos recursos, sem condições de remunerar adequadamente seus profissionais. Mesmo porque, nelas, as prioridades são outras, com obras de maior visibilidade política e investimentos mais rentáveis. E, mais uma vez, as autoridades federais se põem a dizer que vão resolver a questão “produzindo” mais médicos. Mas não apenas isso. Agora vão também trazer mais médicos. Desta vez não apenas de Cuba, da Bolívia, do Paraguai, da Rússia, mas da Península Ibérica, de países que passam por sensível aumento do desemprego em consequência da séria crise econômica que se abateu em toda a Europa.
Foram divulgadas normas para facilitar a entrada de médicos estrangeiros no Brasil. A ideia é que trabalhem vinculados à rede pública em cidades do interior e periferias. Com registro provisório de dois anos, receberiam o acompanhamento de tutores, seriam supervisionados e teriam aulas de português. Após esse período, teriam a opção de permanecer por aqui, desde que aprovados em exame de revalidação do diploma. Aliás, se objetiva “flexibilizar” o exame do Revalida para que se aprovem estes médicos e os habilitem a exercer a Medicina em nosso país. Redundante equívoco.
Certamente não será na base da quantidade que resolveremos as falhas na distribuição geográfica de médicos. Vale lembrar que já somos quase 400 mil e, todos os anos, são graduados mais de 6 mil.
Estudo divulgado pelo CFM e Cremesp mostra que possuímos quase dois médicos para cada 1 mil habitantes; média semelhante à de diversas nações do primeiro mundo. Aliás, nas últimas quatro décadas, enquanto o total de médicos cresceu mais de 500%, a população brasileira pouco mais que dobrou.
Difícil acreditar que o custo e a logística de uma política de fixação de médicos estrangeiros em regiões remotas – incluindo tutores, supervisores, professores de português e revalidação de diplomas – sejam mais vantajosos do que estimular os próprios profissionais do País, com uma carreira de Estado bem moldada, salários dignos e possibilidade de progressão.
Sem falar que é um atentado ao cidadão colocar na linha de frente do atendimento profissionais que não conhecem as características de nosso sistema de saúde, não possuem informações suficientes sobre a epidemiologia do Brasil, ignoram boa parte das enfermidades tropicais e nem ao menos compreendem as particularidades de nossa relação médico-paciente.
Se alguém ainda pensa tratar-se de apenas um equívoco do governo, cabe um alerta: é um ataque premeditado à Medicina, aos médicos e aos pacientes. É mais uma ação demagógica de um governo que pauta suas propostas apenas com olhos eleitoreiros, usando da ignorância e boa-fé das pessoas pouco esclarecidas, mas que votam.
Françoso representa o Estado de São Paulo no Conselho Federal de Medicina
Tags: carreira de médico, formação, atuação, Revalida.
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